Línguas de Fogo, Karen Soarele, 1ª edição, Campo Grande-MS: Cubo Mágico, 2012, 216 páginas.
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Se o amor é o sentimento mais importante na vida de uma pessoa, certamente a amizade é o bem mais precioso que alguém pode desejar. No entanto uma amizade verdadeira não se resume apenas em confiança, assim como não é simplesmente estar presente nos momentos mais difíceis, mas sim uma mistura desses dois elementos. Uma mistura que em alguns casos pode ser fundamental para a sobrevivência, como acontece em Línguas de Fogo, primeiro livro da série Crônicas de Myríade, escrito por Karen Soarele.
Protagonizado por Aisling, uma jovem camponesa que vive no reino mais poderoso de Myríade, Línguas de Fogo se inicia narrando um acontecimento que pode mudar o destino da protagonista e de todos os moradores do vilarejo após esse ser atacado por uma salamandra. Durante o ataque, Dharon, o melhor amigo de Aisling, acaba se ferindo e a jovem e ingênua camponesa se vê obrigada a partir em busca de ajuda. No entanto, para encontrar o antídoto capaz de salvar Dharon, Aisling precisa atravessar a fronteira e enfrentar perigosas aventuras no território inimigo.
“Ali, um brilho incandescente surgiu. Uma energia sobrenatural em forma de chamas, que lambia suas mãos e a fazia se sentir invencível. Kendra deu um sorriso de prazer. Com um movimento, transformou as chamas em uma esfera de energia concentrada, e lançou-a na direção dos três cavaleiros” (pág. 99).
Apesar de muito bem escrito e de possuir uma história estruturada perfeitamente, Línguas de Fogo é o tipo de livro simples capaz de encantar mais pela bonita mensagem do que por suas aventuras. Por ser um livro de fantasia, esperamos encontrar muita ação e magia, o que também está presente, porém é a maneira que Karen Soarele mostra a verdadeira amizade que transforma essa história em algo especial.
Sem possuir o romance exagerado e desnecessário que muitos autores insistem em utilizar, a relação entre Aisling e Dharon em Línguas de Fogo passa por provas de fidelidade com a mesma intensidade em que os amigos precisam unir forças para superar as adversidades que surgem conforme adentram no território inimigo. Com isso vamos conhecendo a relação conturbada entre os países ao mesmo tempo em que a personalidade de Aisling passa por mudanças, algumas delas drásticas.
A princípio uma personagem sem graça e fora do padrão de uma verdadeira heroína, Aisling se transforma conforme vai descobrindo que o mundo não é tão simples como o que ela conhecia em seu vilarejo. De uma camponesa sem nada de novo a passar, ela se torna uma mulher guerreira, que aos poucos conhece sua verdadeira história e descobre que o seu passado pode ser de extrema importância para o futuro de Myríade. Outros personagens também sofrem mudanças, sendo que alguns deles possuem personalidades fortes e marcantes desde o início, porém nenhum deles se compara a mudança sofrida por Aisling.
Em determinado momento ainda somos surpreendidos com a citação da Rainha da Primavera, que teve sua história publicada de forma gratuita no curto romance A Rainha da Primavera, que faz parte da série independente Pergaminhos Perdidos de Myríade. Se com tão pouco já existe um forte interesse em conhecer a história da Rainha da Primavera, mulher de grande influência para os reinos, com o que envolve o desfecho de Línguas de Fogo o interesse é ainda maior, devido a magia e a lenda que conhecemos tão pouco.
Porém o livro não pode ser considerado uma verdadeira obra prima. O estilo de escrita e a maneira como a narrativa se estende torna Língua de Fogo uma obra indicada aos mais jovens, que esperam uma aventura mais simplória e com pouca enrolação, característica principal dos livros de fantasia. Nesse caso tudo passa muito rápido, e o que poderia ser bom acaba prejudicando a história por falta de respostas (o passado dos personagens, por exemplo) ou de situações esperadas e necessárias, que podem acontecer em Tempestade de Areia, livro com publicação prevista para os próximos meses.
O que importa, no caso de um livro que aparentemente se foca mais na mensagem que será deixada, é mesmo a amizade, como já foi citado. Uma amizade que nos mostra uma situação em que é necessário fazer escolhas que podem ser egoístas e causar a cura ou ajudar a todos e evitar a guerra. E nesses casos as escolhas são difíceis, porém necessárias.
“Aisling olhou ao redor. Era tudo tão maravilhoso! O céu resplandecia sobre sua cabeça, as nuvens calmas transitavam em harmonia. A cidade, tão alheia à existência daquele santuário magnífica, insistia em se mover incessantemente. Ela própria também estaria alheia a tudo, não fosse sua determinação em não se deixar estagnar” (pág. 175).
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