Foram dezesseis dias de competições. Recordes olímpicos
e mundiais foram quebrados. Atletas se tornaram lendas e lendas se despediram
do esporte. Adolescentes competiram como gente grande e gente grande se
divertiu como criança. Lágrimas de tristeza e principalmente de alegria tomaram
conta de rostos de várias etnias e países de culturas diferentes. E o como
sempre, torcedores brasileiros transformaram Londres em uma cidade tipicamente
brasileira, com alegria e uma torcida contagiante.
Nunca a delegação brasileira chegou a uma Olímpiada com
tantas chances de medalha. Seja no atletismo, na natação, ou nos esportes
coletivos, havia sempre uma pequena esperança de conquistar a tão sonhada
medalha olímpica. Mas os Jogos Olímpicos Londres 2012 também foram repletos de
decepções para nossos atletas. Alguns com eliminações precoces, outros batendo
na trave. Não importa. Ao final da competição, o Brasil conquistou 17 medalhas - 3 ouro, 5 prata, 9 bronze -, ficando em 22º no quadro geral e
superando a nossa melhor campanha até então.
Prata
e bronze ao país do vôlei
O melhor vôlei do mundo chegou a Londres com chances
reais de conquistar quatro medalhas de ouro: duas na praia e duas na quadra.
Por mais que a torcida fosse grande e a qualidade de nossos atletas
incomparável, a medalha dourada veio uma única vez.
A primeira derrota aconteceu na praia com a dupla Juliana
e Larissa. As melhores jogadoras do mundo pararam nas americanas Kerry e Ross
ainda na semifinal e disputaram a medalha de bronze. Enfrentando as chinesas
Zhang e Xue, as brasileiras encontraram certa dificuldade e precisaram levar a
partida ao tie-break, quando venceram por 15 a 12 e conquistaram o bronze.
Jogando ao lado de Alison, o campeão olímpico Emanuel
tentava repetir o feito de 2004, em Atenas. A dupla chegou a final e enfrentou os
alemães Brink e Reckermann. Com erros incomuns, Alison e Emanuel perderam por 2
sets a 1 e ficaram com a prata. O novato Alison comemorou sua primeira medalha olímpica,
enquanto Emanuel sentia a emoção pela terceira vez.
O ouro
continua inédito
A medalha mais esperada por nossa torcida era a do
futebol masculino. O craque Neymar e os demais jogadores do técnico Mano
Menezes tinham a responsabilidade de conquistar o único título que restava ao
nosso futebol. Começaram de forma arrebatadora. Foram cinco vitórias antes da grande
final. No entanto, quando foi preciso vencer, a seleção não conseguiu se
sobressair e foi derrotada pelo México, conquistando apenas a medalha de prata
e adiando o ouro para os próximos jogos.
Um
nocaute no tabu
Ao longo dos anos, o Brasil teve diversos pugilistas
campeões mundiais, mas no boxe amador, mais precisamente no boxe olímpico, apenas
um atleta conquistou medalha: Servílio de Oliveira, na Cidade do México em
1968. Mais de quarenta anos depois, o boxe voltou a conquistar medalhas. Foram
três, sendo que uma delas no boxe feminino, que estreia em Jogos Olímpicos.
A primeira medalha veio com a baiana Adriana Araújo. Ao
chegar a semifinal, Adriana garantiu ao menos a medalha de bronze, porém ainda
sonhava com uma inédita final. A grande barreira foi a atual vice-campeã
mundial, Sofya Ochigava, que entrou com o favoritismo e se aproveitou dele.
Venceu a brasileira por 17 a 11, garantiu a vaga na final, e deixou a brasileira
com o bronze. Uma medalha de bronze mais do que especial e comemorada.
Os irmãos Yamaguchi e Esquiva Falcão também entraram
para a história do esporte olímpico. Enquanto Yamaguchi foi derrotado pelo
russo Egor Mekhontcev na semifinal e ficou com a bronze, Esquiva foi além.
Chegou a final e devido a uma punição, que descontou dois pontos, foi derrotado
pelo japonês Ryota Murata. Não importava. Esquiva se tornou uma lenda do boxe
olímpico brasileiro, quebrou o tabu e trouxe uma medalha de prata inédita.
Virada
histórica, derrota dolorida
O Brasil nunca esteve tão perto de uma medalha de ouro
como no vôlei masculino. Jogando a final contra a Rússia, os jogadores comandados
pelo técnico Bernardinho venceram os dois primeiros sets e no set seguinte
estavam com a vitória na mão, precisando de poucos pontos para o ouro. Inacreditavelmente
perderam os matchs points e tiveram ainda dois sets para tentar a vitória, o
que não aconteceu. No tie-break, vitória dos russos por 15 a 9 e a medalha de
ouro, praticamente certa, se transformou em mais uma prata, o que aconteceu
também em 2008. Uma derrota dolorida que jamais será esquecida. Uma derrota
incompreensível.
Um
bronze inesperado
Quando todos acreditavam que a participação brasileira
já havia chegado ao fim, eis que Yane Marques surpreende e conquista uma nova
medalha de bronze. Uma medalha inédita no pentatlo moderno.
O esporte que reúne hipismo, esgrima, natação, tiro
esportivo e corrida é aquele que procura um atleta completo. É pouco praticado
fora da Europa, e por isso sua participação nos Jogos Olímpicos pode ter chegado
ao fim. Antes disso, Yane Marques já entrou para a história. Subiu ao pódio com
a britânica Samantha Murray, que ficou com a prata, e a líder do ranking
mundial e agora campeã olímpica, a lituana Laura Asadauskaite.
Depois das eliminações, ainda nas fases
classificatórias, dos grandes destaques de nossa ginástica, o esporte estava
desacreditado e o sonho da medalha olímpica parecia distante. Mas enquanto os
brasileiros estivessem se apresentando, a esperança continuaria viva e todos
sabiam: era questão de tempo para a medalha.
Os últimos resultados de Arthur Zanetti, de 22 anos e
apenas 1,56m, mostravam que ele tinha claras condições de brigar por uma
medalha, mas para isso precisaria desbancar atletas de grandes potências no
esporte. Ele não se importou com a pressão. Depois de ficar com a prata nos
Jogos Pan-Americanos Guadalajara e no Mundial de Tóquio, ambos em 2011, o
brasileiro queria colocar seu nome definitivamente na história do esporte. E
conseguiu.
Mais de um século depois da primeira participação da ginástica artística em Jogos Olímpicos, um atleta sul-americano subiu ao pódio.
Era Arthur Zanetti, que logo de cara conquistou a tão sonhada medalha de ouro e
se tornou um campeão olímpico.
Com uma leve ousadia, Arthur se poupou na semifinal e conseguiu
o quarto lugar, podendo assim ser o último a se apresentar na grande final. Era
seu objetivo, afinal, saberia a nota de todos os seus adversários e poderia
fazer tudo de forma calculada.
Assim como o até então campeão olímpico, o chinês
Yibing Chen, Arthur Zanetti tinha a série mais difícil e antes de subir nas
argolas, sabia que a nota do seu maior adversário era de 15.800. Não era a
melhor nota do chinês e com isso a esperança apenas aumentou.
Tudo conspirava a favor do brasileiro, que viu outros
concorrentes cometendo erros bobos e tendo suas notas diminuídas com desequilíbrios
e quedas na saída das argolas. Quando ele subiu no aparelho, tinha a
responsabilidade de chegar a perfeição caso quisesse o ouro. E ele queria.
Iniciou sua série esticando o corpo em 90°, o que
repetiu mais tarde; fez a posição da vela; um duplo mortal carpado; o movimento
do Cristo também em duas oportunidades. Tudo mostrando força, equilíbrio e
inteligência, o que se espera de um ginasta de ponta. Na saída, um tsukahara
esticado e um salto com rotação. Deu um pequeno passo, e ele sabia que sua nota
seria descontada, mas o sorriso estampado no rosto de Zanetti mostrava sua
confiança.
Os segundos se passaram e o nervosismo tomou conta da
Arena de North Greenwich. No Brasil, a expectativa era grande. Mesmo quem não
entendesse do assunto sentia que a apresentação era digna de uma medalha.
Quando a nota 15.900 apareceu no telão, o nervosismo deu origem a vibração e as
lágrimas que coroaram o mais novo medalhista olímpico do esporte brasileiro.
Depois de quatro tentativas – Daiane dos Santos em 2004; Diego Hipólito em
2008; e Sérgio Sasaki em 2012 -, o Brasil estava no lugar mais alto do pódio e
Arthur Zanetti representava toda a América Latina.
O
Campeão Voltou
O caminho em busca do ouro no vôlei feminino parecia
estar mais longo do que de costume. Às vésperas dos Jogos Olímpicos,
importantes jogadoras foram cortadas e o clima, pelo menos para quem não fazia
parte do grupo, parecia não ser dos melhores. Mas as meninas do nosso vôlei
superaram todas as adversidades e conquistaram o bicampeonato Olímpico,
comprovando que agora o Brasil é o país do vôlei – apesar das demais derrotas.
A primeira fase foi atípica se tratando da nossa
seleção. A vitória apertada no primeiro jogo e as duas derrotas seguintes
deixaram a seleção desacreditada. As chances do time comandado por Zé Roberto
Guimarães ser eliminado ainda na primeira fase eram grandes, porém a seleção
acostumada a ganhar todos os títulos faria a diferença novamente. Entraria para
a história.
Com apenas três vitórias, a seleção se classificou para
as quartas-de-finais e teria pela frente a toda poderosa Rússia, adversária que
estava engasgada na garganta há muito tempo.
Em um dos jogos mais emocionantes da história recente
do vôlei, o Brasil enfrentou as russas de igual para igual, porém pecou em
alguns fundamentos e a apreensão dos torcedores era grande. Mas as
guerreiras de verde e amarelo não queriam ser derrotadas e levaram o jogo para
o tie-break, dando vida ao set mais emocionante de toda a competição – porque
não da história do esporte. Nossa seleção chegou a estar perdendo e precisou
salvar seis match points, contando sempre com a técnica da oposto Sheilla. Quando
as brasileiras tiveram a oportunidade de
encerrar a partida, as russas não conseguiram defender. Vitória brasileira e o
grito ecoou pela arquibancada: o campeão voltou!
A pressão na semifinal era menor, porém do outro lado
da quadra havia uma seleção japonesa que aos poucos voltava ao auge de décadas
atrás. O Brasil enfrentou a equipe com melhor recepção da competição, e foi superior.
Novamente nossas meninas não se intimidaram e fecharam o jogo em 3 sets a 0.
Mais uma final e uma medalha garantida.
Após perder para a seleção norte-americana na primeira
fase, o Brasil chegou a final sem o favoritismo. Melhor para nós. A pressão da
vitória estava toda do lado das americanas, principalmente por ser a única
potência no esporte a não ter um importante título como as Olímpiadas. A equipe
liderada pela oposto Hooker entrou em quadra e aproveitando os erros, causados
pela ansiedade das brasileiras, fechou o primeiro set em 25 a 11.
A partir do segundo set a história foi diferente. Com
bela atuação da ponteiro Jaqueline – que perdeu um filho durante uma gravidez e
viveu um drama no último Pan-Americano – e ótimos levantamentos e saques de
Dani Lins, a seleção brasileira fechou o segundo set em 25 a 17. A vitória
americana, que parecia certa, já não era mais vista dessa forma.
Aos poucos todas as jogadoras brasileiras mostravam o
seu talento. Fernanda Garay, que ganhou o lugar de Paula Pequeno ao longo da
competição, acertava a maioria das bolas; a líbero Fabí não desistia em nenhum
lance; os ataques das adversárias não passavam pelo bloqueio da capitã Fabiana;
e em belos ataques, Sheilla e Jaqueline aumentavam a pontuação do Brasil. O
terceiro set foi mais equilibrado, porém com vitória canarinha: 25 a 20. Nossas
meninas estavam a um set do bicampeonato Olímpico.
O quarto set era decisivo para a seleção dos Estados
Unidos. Era vencer ou vencer. Elas tentaram, mas a raça e a vontade brasileira
eram ainda maiores. Criticadas pela a imprensa nacional e internacional, as
brasileiras não se intimidaram com a força e a tentativa de reação das
americanas. No quarto set, continuaram com a cabeça no lugar; abriram vantagem
e em determinado momento precisavam apenas administrar o placar. Faltando um
ponto para a medalha de ouro a bola caiu próxima a Garay, que não poupou a
força ao mandá-la para o outro lado da quadra e consagrar a vitória no quarto
set em 25 a 17, fechando a partida em 3 sets a 1.
Doze mulheres guerreiras mostraram o potencial do
melhor vôlei do mundo e receberam a medalha de ouro que não era apenas delas.
Eram de 190 milhões de brasileiros que torceram em todas as partidas dos Jogos
Olímpicos; roeram as unhas; ficaram nervosos e inclusive acordaram cedo quando foi
necessário.
Esses 190 milhões de brasileiros se emocionaram com o
fim da partida e também a cada pulo, sorriso ou lágrima durante a
comemoração das meninas. O grito de bicampeão estava presente na garganta de todos os
brasileiros. Quando as jogadoras subiram ao pódio, com a alegria tipicamente
brasileira, todos sorriram e se emocionaram, porque pela terceira vez o nosso
hino foi tocado em Londres. Agora pelas mãos de doze mulheres inesquecíveis.
Essas mulheres entraram na história. Sheilla, a melhor
brasileira em toda a competição; Fernanda Garay, um monstro em quadra, seja no
ataque ou na defesa; Paula Pequeno, mesmo na reserva, sempre uma gigante;
Fernandinha, até então desconhecida, mas agora campeã Olímpica; Fabiana, a
capitã que toda seleção deseja; Thaísa, vibrante em todos os momentos; Fabí, a
líbero que não desiste nunca; Adenízia, mesmo pouco usada, uma peça fundamental
na equipe; Dani Lins, que levantou todas as bolas na medida certa para o ponto
e pode ser considerada a melhor levantadora da competição; Jaqueline, superando
as dores do último Pan-Americano; Tandara, uma grande aposta para o futuro;
Natália, um exemplo de superação, dedicação, alegria e um vôlei excepcional,
que é também uma grande aposta para o futuro do nosso vôlei. Todas elas comandadas pelo único técnico três
vezes campeão olímpico: José Roberto Guimarães, o grande craque e responsável
por esse título importante para a nossa história. O maior técnico de vôlei da
atualidade.
Após os dezesseis dias de competição, chegou a hora de
dar adeus aos Jogos Olímpicos Londres 2012 e disparar a contagem regressiva para
os Jogos Olímpicos Rio 2016.
Repetindo a beleza da abertura (Imagem da Semana 82#) e
emocionando a todos, como aconteceu durante as competições, a cerimônia de
encerramento contou com muito som, mostrando ao mundo o melhor da música
britânica. De Beatles, passando por Queen, DJ Fatboy Slim e contando com uma
nova reunião das Spice Girls. E se você pensa que Freddie Mercury não estava presente,
você está enganado. Uma projeção holográfica reviveu um momento marcante da
carreira do cantor.
E após toda a festa londrina, os olhos do mundo se
voltaram para o Brasil. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recebeu a
bandeira do COI (Comitê Olímpico Internacional) e a responsabilidade de
organizar os próximos jogos, que acontecem a partir do dia 05 de agosto de
2016.
Por pelo menos oito minutos, o Estádio Olímpico se
tornou totalmente brasileiro. Robert Scheidt e Pelé participaram da festa, que
contou com a música de Seu Jorge, Marisa Monte e o rapper BNegão. E o gari
Renato Sorriso, figura conhecida no carnaval carioca, mostrou ao mundo a magia
do samba. Apresentou o Rio de Janeiro aos 205 países participantes da atual
edição e disse um “até breve”. As próximas Olímpiadas estão aí e somos os novos
responsáveis pela festa.













