Autor do livro “Carratos — Uma história de rock” (Novo Século, 2011), biografia da banda homônima que narra os passos de um grupo de rock considerado um sonho realizado pelo próprio autor, Ocelo Moreira embarca, com Oliver Moore — O legado do rock, em sua primeira obra ficcional, tendo mais uma vez o gênero musical que mais transformações causou na música mundial como temática principal.

Oliver Moore gira em torno do músico de mesmo nome, personagem que mora no interior da Inglaterra e enfrenta um momento difícil em sua vida, quando conhece um milionário que lhe promete transformar a sua vida. Com esperança de que essa promessa realmente fará a diferença, ele parte para Londres, mas tem seus planos interrompidos graças a uma grande crise financeira, obrigando-o a recomeçar. O recomeço acontece ao lado de seu melhor amigo e de seu grande amor da adolescência. Juntos, e com a música como grande aliada, os três sofrem mudanças irreparáveis em suas vidas, ditando todo o ritmo do enredo.

Ultra Carnem, Cesar Bravo, 1ª edição, Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016, 384 páginas.
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Sou paulistano, mas aos 17 me mudei para o interior de São Paulo, onde vivo desde então. Morei em várias cidades, da fronteira do sul de Minas até a região central do estado. Dentre os ditados caipiras que me vêm à mente quando penso no livro Ultra Carnem, de Cesar Bravo, o que melhor define a obra é se está no inferno, abrace o capeta! Cesar Bravo nasceu em uma cidadezinha perto de Ribeirão Preto, e não sei quanto tempo morou nesse interiorzão, mas o fato é que esse período ficou tão marcado em sua memória que ele usou de cenário para sua obra máxima. Criou nomes fictícios para essas cidades, pois ninguém gostaria de ver sua cidadezinha ser chamada de buraco de merda, ou coisa assim, mas nós sabemos do que ele está falando. Eu já morei em lugares assim, sei bem como é.

Quanto à parte gráfica, é um volume com a marca de excelência Darkside. Capa dura, com um material meio emborrachado, e um design gráfico atraente. Dizer mais é quebrar o elemento surpresa.

O livro narra a trajetória de um artista cigano chamado Wladimir Lester e de outros personagens que de uma maneira ou de outra acabam tendo a vida miserável arruinada em virtude de entrar em contato com as obras de arte malditas do artista, ou de alguma maneira interferir na trajetória do personagem. A partir dessa premissa o autor cria no romance quatro histórias que se fundem em uma conclusão dantesca.

Na primeira parte do livro somos introduzidos à Lester, um pobre menino órfão que é deixado em um orfanato da pequena cidade de Três Rios, aos cuidados de um padre. O livro é muito bem escrito, a leitura flui naturalmente e quando você menos espera está enredado na trama macabra tecida meticulosamente, fio a fio. Essa parte parece ter sido feita sob encomenda para os fãs de terror mais tradicional, e apesar de atiçar a curiosidade, não é o ponto alto do livro. Posso estar errado, mas acredito que essa parte foi escrita há mais tempo do que as outras, pois utiliza fórmulas do terror clássicas.
Você nunca encontra o que procura. O tempo come tudo, Nôa. Roupas, valores, devora inclusive a esperança de nos entendermos com o passado. O que aconteceu com o tal menino e com as outras pessoas deste livro é algo que não pertence a nós.

O Código da Vinci: Edição especial para jovens, Dan Brown, tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook, 1ª edição, São Paulo-SP: Arqueiro, 2016, 312 páginas.
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Um assassinato dentro do Museu do Louvre traz à tona uma sinistra conspiração para revelar um segredo protegido por uma sociedade secreta desde os tempos de Jesus Cristo.

Com a ajuda da criptógrafa Sophie Neveu, o professor de Simbologia Robert Langdon segue pistas ocultas nas obras de Leonardo Da Vinci e se debruça sobre alguns dos maiores mistérios da cultura ocidental – do sorriso da Mona Lisa ao significado do Santo Graal.
“Mais estranho? Um homem agonizante se entrincheira na galeria, tira a roupa, desenha um pentagrama no próprio corpo e escreve no assoalho uma acusação misteriosa. Por acaso haveria algo que não fosse estranho em todo esse incidente” (pág. 34).

Colecionadores de Histórias, Rogério Feltrin, 1ª edição, São Paulo-SP:
Planeta, 2016, 192 páginas.
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A trajetória de quase trinta anos da banda Rosa de Saron tem diversas peculiaridades que transformam a banda em uma referência do rock católico no Brasil. Embora tenha surgido dentro de um movimento católico, a importância do grupo ultrapassou as barreiras impostas pelas divergências religiosas e hoje todos que compõem esse grupo podem se orgulhar de ter conquistado fãs de diversas religiões cristãs — e outros tantos que nem menos seguem uma religião —, isso sem levar em consideração o seu poder de evangelização, um elemento talvez ainda mais importante.

Com tantos fãs, que carregam suas próprias histórias, seria natural que o grupo recebesse diariamente muitos relatos e a proposta de Colecionadores de Histórias é justamente narrar alguns deles, deixando-os para a posterioridade. Diferente de “Rock, Fé e Poesia” (Ed. Pontes, 2008), em que Rogério Feltrin, o fundador e baixista da banda, narra toda a trajetória do Rosa de Saron, na ocasião completando vinte anos de estrada, em Colecionadores de Histórias o autor apresenta uma série de histórias dos fãs, não sem também refletir sobre o impacto que cada história gera.

O que torna o livro tão marcante ao seu leitor é perceber como os relatos contidos em suas páginas podem possuir semelhanças com as histórias que todos nós vivemos dia após dia. De perdas familiares a problemas relacionados às drogas, de doenças incuráveis a transformações a partir da dor, os relatos publicados na obra emocionam a ponto de tirar lágrimas e de apertar o coração — perdi as contas de quantas vezes enxuguei os olhos durante a leitura. Também por isso é uma leitura que exige o mínimo de um bom estado de espírito para saber lidar com tantas histórias tristes, e algumas muito pesadas, que os nossos semelhantes são obrigados a enfrentar.

Quando o amor bater à sua porta, Samanta Holtz, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2016, 304 páginas.
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Malu Rocha é uma escritora de 29 anos independente, confiante e bem-sucedida. Mora sozinha em São José dos Pinhais, perto de Curitiba, onde mantém uma rotina regrada de pedalar todas as manhãs, escrever e, semanalmente, visitar o avô de 98 anos em uma casa de repouso.

Porém sua vida toda controlada sai do eixo quando um homem bate à sua porta e se apresenta como Luiz Otávio Veronezzi, dizendo ter perdido uma reunião marcada com ela. Malu não se lembra do compromisso e sua primeira reação é dispensá-lo. Mas o belo desconhecido insiste, explicando que sofreu um acidente de carro, ficou em coma e perdeu a memória, assim como seus documentos. As únicas coisas que restaram foram um pouco de dinheiro e um papel com o nome e o endereço de Malu, o nome dele e a data da reunião. Luiz confessa que a escritora era sua última esperança para descobrir a própria identidade.

O problema é que ela não tem a menor ideia de quem ele seja.
“Malu mal ousou respirar. Seus pensamentos se dividiram entre o desejo que pulsava vivo em seu corpo e a possibilidade muito real de Luiz Otávio ter uma pessoa à espera dele, escondida na penumbra temporária da amnésia. As duas vozes brigavam dentro dela, e era quase impossível distinguir qual delas vencia” (pág. 120).

Cobra Norato, Raul Bopp, ilustrações de Ciro Fernandes, 30ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
José Olympio, 2016, 96 páginas.
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O desejo de corrigir um antigo erro pessoal foi o principal motivo que me levou a decidir pela leitura de Cobra Norato, porém ela foi muito aquém do esperado e pelas mesmas razões que me fizeram cometer o erro supracitado, o que me faz questionar se realmente devo considerar que tenha errado no passado.

Quando digo tudo isso me refiro ao fato de em outras oportunidades, ainda no período escolar, ter abandonado leituras tidas como importantíssimas para a Literatura brasileira. Hoje vejo que ter abandonado alguns clássicos pode ser visto como um grande pecado literário, mas tenho a certeza que faria exatamente a mesma coisa com Cobra Norato se tivesse iniciado a sua leitura na época em que era obrigado a fazê-lo. Isso porque, embora tenha uma ótima premissa, não é uma leitura que prende a atenção. Muito pelo contrário.

Esse é um poema de grande importância para a primeira fase do modernismo brasileiro e tem como enredo a trajetória de um ser lendário que sai em busca de sua amada, mas para alcançar o seu objetivo precisa enfrentar uma série de provações e vencer diversos desafios. Na teoria essa é uma história que poderia render ótimos momentos de prazer literário, em especial por explorar um pouco do rico folclore brasileiro, mas na prática ficou bem distante do esperado.

Meio Rei, Joe Abercrombie, tradução de Alves Calado, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2016, 288 páginas.
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Filho caçula do rei Uthrik, Yarvi nasceu com a mão deformada e sempre foi considerado fraco pela família. Num mundo em que as leis são ditadas por pessoas de braço forte e coração frio, ser incapaz de brandir uma espada ou portar um escudo é o pior defeito de um homem.

Mas o que falta a Yarvi em força física lhe sobra em inteligência. Por isso ele estuda para ser ministro e, pelo resto da vida, curar e aconselhar. Ou pelo menos era o que ele pensava.

Certa noite, o jovem recebe a notícia de que o pai e o irmão mais velho foram assassinados e não lhe resta escolha a não ser assumir o trono. De uma hora para outra, ele precisa endurecer para vingar as duas mortes. E logo sua jornada o lança numa saga de crueldade e amargura, traição e cinismo, em que as decisões de Yarvi determinarão o destino do reino e de todo o povo.
“Pelos deuses, como ele odiava aquela malha! Como odiava Hunnan, o mestre de armas, que durante tantos anos fora seu principal tormento. Como abominava as espadas e os escudos, detestava o campo de treino e desprezava os guerreiros que faziam dali o seu lar! Acima de tudo, como odiava sua própria mão, que não passava de uma piada ruim, uma lembrança de que ele jamais poderia ser um deles” (pág. 21).

8ª Confissão, James Patterson e Maxine Paetro, tradução de Carla Gouveia, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2013, 192 páginas.
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Dois crimes brutais obrigam as amigas do Clube das Mulheres Contra o Crime a iniciarem uma investigação em que as principais vítimas estão em lados opostos da sociedade. De um lado o casal Isa e Ethan Bailey, milionários que voltam para casa após uma apresentação musical e são surpreendidos por um assassino pronto para executar uma vingança e cometer um crime perfeito.

De outro lado, um morador de rua é assassinado e isso intriga a jornalista Cindy Thomas, que à sua maneira vai atrás de informações sobre o caso e acaba descobrindo que a morte desse morador de rua está ligada à uma rede criminosa. O maior problema nisso tudo é o alto preço que o Clube das Mulheres Contra o Crime, liderado por Lindsay Boxer, pode pagar por se envolver em casos tão complexos.
“Hernandez olhou para mim como se à espera de que eu acabasse com o pesadelo, mas eu já estava pensando naquele quebra-cabeça, me perguntando se, de fato, assumira algum tipo de história de Agatha Christie” (pág. 54).

Welcome to Copacabana & outras histórias, Edney Silvestre, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Record, 2016, 352 páginas.
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Por um motivo que particularmente desconheço, não é normal a criação de uma lista com os nossos jornalistas favoritos, porém se hoje fosse obrigado a criar essa lista não tenho a menor dúvida de que Edney Silvestre seria o primeiro nome lembrado. Embora não saiba dizer quando minha admiração por ele começou, sei que foi responsável por algumas das minhas matérias/coberturas favoritas e por isso tenho o costume de parar o que estou fazendo para ouvi-lo. Talvez esse seja o principal motivo que me levou a querer conhecer os seus livros.

Ganhador do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, Edney acaba de lançar Welcome to Copacabana & outras histórias, livro que reúne vinte contos divididos em três partes: No Rio, Além do Rio e De Volta ao Rio. Isso deixa claro que nos primeiros contos o autor explora ao máximo o Rio de Janeiro e aí que está o grande barato da obra, em especial pelo fato de ainda não conhecer a Cidade Maravilhosa e todos os seus encantos (e aqui faço uma pausa para dizer que o maior desejo é conhecer o Cristo Redentor, por me orgulhar de ser conterrâneo de um dos responsáveis por sua criação).

Digo que esse é o grande barato porque lendo não é difícil se sentir no Rio de Janeiro. Por minha relação com a cidade ser apenas através das telas da televisão, a forma como autor descreve o cotidiano, e os próprios cariocas, estreita a relação com o desconhecido e apresenta uma faceta que geralmente não se está acostumado. Isso é mais forte e especial no conto que dá título ao livro.

Outro conto sombrio dos Grimm, Adam Gidwitz, tradução de Rodrigo Abreu, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Galera Júnior, 2016, 352 páginas.
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Aqui muitas coisas são diferentes do que você está imaginando, então não pense que já conhece essa história. Talvez você conheça João, porém não deve imaginar que a sua prima Jill é uma princesa, tampouco o que de fato acontece quando os dois juntos sobem em um pé de feijão para encontrarem com gigantes e procurar por um artefato mágico. E ao refletir sobre essas histórias você tem apenas duas opções: acreditar que tudo acaba por aí ou que muitas coisas sangrentas e horrorosas podem aparecer no caminho de João e Jill.

Acertou quem escolheu a segunda opção.
“Lá no alto, as primeiras estrelas tinham acabado de começar a aparecer no céu. As lágrimas que caíram no poço agitaram a superfície da água e, com isso, o reflexo das estrelas. Agora, talvez você saiba e talvez não, mas essa é a única forma de acordar as estrelas. E foi o que aconteceu” (pág. 26).

Bojabi: A árvore mágica, Dianne Hofmeyr, ilustrações de Piet Grobler, tradução de Carolina Maluf, 1ª edição, São Paulo-SP: Biruta, 2013, 26 páginas.
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Essa é uma resenha diferente. Apesar da dificuldade de falar sobre livros infantis, poderia me esforçar para escrever uma resenha tradicional, em que destacasse os pontos positivos e negativos da obra. No entanto, ela trouxe uma experiência inesquecível e consequentemente isso me obriga a dividir com meus leitores o quão delicioso pode ser transmitir o gosto pela leitura aos mais jovens.

A escolha por Bojabi: A árvore mágica foi com uma única intenção: atender uma escola que me convidou para contar histórias aos alunos do primeiro ano do ensino fundamental. Em um primeiro momento isso poderia ser apenas uma visita a uma escola, porém o que aconteceu superou as expectativas e sai renovado do meu encontro com os alunos, em parte pelo carinho que os pequenos sempre demonstram e também por perceber o encanto dos mesmos com as histórias de um modo geral.

Em seu livro, a sul-africana Dianne Hofmeyr conta uma das versões de uma história muito conhecida na África, narrando a aventura de alguns animais que tentam a todo custo se aproximar de uma árvore mágica carregada de frutos vermelhos e maduros que exalam o aroma das mais doces mangas, que são gordos como melões e suculentos como tâmaras. O problema é que uma píton está enrolada em volta do tronco, dizendo que sairá de lá apenas quando os animais descobrirem o nome da árvore mágica.

Não fale com estranhos, Harlan Coben, tradução de Marcelo Mendes, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2016, 304 páginas.
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Apenas algumas palavras ditas por um estranho, em um bar qualquer, foram capazes de destruir a vida de Adam Price. Assim, de uma hora para outra, tudo o que ele acreditava sobre a sua família, e especialmente sobre sua esposa Corinne, se desmoronou, colocando uma pulga atrás de sua orelha que o obrigou a ir atrás de respostas que, para sua infelicidade, mostraram que todas as revelações eram incontestáveis.

Ao confrontar Corinne, ele percebe que a imagem de sua esposa, criada por ele com perfeição, tinha grandes falhas e isso o leva a uma investigação por conta própria, onde acaba se envolvendo em mentiras, chantagens, assassinatos e motivações que vão além de interesses próprios.
“As palavras chegavam até Adam como murros de um pugilista, atordoando-o, debilitando-o, deixando-o trêmulo e zonzo, pronto para receber do árbitro a contagem protetora dos oito segundos. Sua vontade era reagir, esmurrar o filho da puta por ter ofendido sua mulher daquela maneira, agarrá-lo pela camisa e arremessá-lo para o outro lado do salão. Mas não foi o que fez” (pág. 10).

Quando finalmente voltará a ser como nunca foi, Joachim Meyerhoff, tradução de Karina Jannini, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Valentina, 2016, 352 páginas.
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Um livro que se passa dentro de um hospital psiquiátrico não é algo que se vê todos os dias, mas, se esse livro tem como protagonista uma criança, ele se torna ainda mais especial. Talvez esse tenha sido o motivo de Quando finalmente voltará a ser como nunca foi ter despertado a minha atenção tão logo o seu lançamento foi anunciado.

Escrito pelo alemão Joachim Meyerhoff, a obra é narrada em primeira pessoa pelo filho mais novo do diretor de um hospital psiquiátrico para crianças e jovens. Por morar com a família nesse hospital, o protagonista vive cercado por centenas de pessoas com algum tipo de deficiência física e mental, mas esse está longe de ser um problema. O verdadeiro problema está dentro de sua própria família e ele passa o tempo inteiro tentando aprender a lidar com isso.

O cartão de visitas de Meyerhoff não poderia ser melhor com o capítulo inaugural de seu primeiro livro publicado no Brasil. Logo no início ele mostra a importância de um primeiro capítulo perfeito, afinal em poucas páginas consegue dar uma amostra de suas principais características e ainda criar um gostinho de quero mais. No entanto, logo no capítulo seguinte ele já despeja um balde de água fria. Não que tenha se tornado ruim, mas a necessidade de apresentar tudo o que cerca a vida do protagonista acaba deixando os capítulos seguintes confusos e sem o brilho extremo das primeiras páginas.

Amor à moda antiga, Fabrício Carpinejar, 1ª edição, Caxias do Sul-RS:
Belas-Letras, 2016, 112 páginas.
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A primeira vez que tive contato com o escritor Fabrício Carpinejar foi assistindo uma de suas entrevistas ao Programa do Jô. Na ocasião não cheguei a correr atrás de nenhum de seus livros, porém pensei: Caramba, esse cara é bom!. E após muito tempo, quando finalmente conheci a sua escrita e passei a acompanhá-lo nas redes sociais, ele não parou mais de comprovar que fiz a escolha certa ao decidir ouvi-lo. Também por isso fiquei ansioso pelo lançamento de seu novo livro.

Amor à moda antiga é a maior prova de como o escritor sempre tem algo bom para dizer. No caso, por ser uma antologia de poemas sobre o amor, suas palavras carregam muitos sentimentos e, mais do que isso, o prazer de lê-los é semelhante ao prazer de ouvi-los sendo declamados. E o mais interessante nessa experiência com o novo livro de Carpinejar é perceber como ele tratou o amor de forma tão pura e verdadeira, retratando o ciúme, as loucuras, os desejos e tantos outros detalhes como de fato o são.

E por não ser um leitor de poemas, pelo menos não no sentido de entrar em uma livraria com o intuito de procurar uma obra do gênero, não posso falar com propriedade sobre eles. Apesar disso, sempre que um poema cai em minhas mãos acabo sendo fisgado para o seu interior, embora nunca tenha acontecido como dessa vez. No fim, encontrei nas palavras de Carpinejar os sentimentos que muitas vezes não soube como expressar e sensações que estou acostumado a carregar em mim, mas que se mantinham até então guardadas à sete chaves.

Grito, Godofredo de Oliveira Neto, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Record, 2016, 160 páginas.
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Por mais que tenha tentado escrever essa resenha pouco depois de concluir a leitura de Grito, foram necessárias pelo menos duas horas e ainda assim elas foram insuficientes para que encontrasse as palavras que melhor descrevessem o novo trabalho de Godofredo de Oliveira Neto, escritor ganhador do Prêmio Jabuti. Geralmente isso acontece com as melhores leituras, mas dessa vez o motivo é bem diferente: apenas não consegui formar uma opinião convincente.

Narrado pela octogenária e ex-atriz Eugênia, Grito conduz o leitor a uma série de experiências vivenciadas por sua protagonista ao lado do jovem Fausto. Em uma espécie de conversa com o leitor, que aparentemente não é o seu único interlocutor, a ex-atriz apresenta o íntimo da relação entre as duas personagens e cria dúvidas sobre os verdadeiros sentimentos que foram despertados através dessa intensa relação de amizade. Como história essa poderia ser apenas mais uma, entre tantas outras, que narram casos semelhantes; como narrativa, o autor surpreende pela maneira como a conduziu.

O primeiro ponto que me fez ficar interessado por essa história foi o fato de ela ser desenvolvida no meio teatral, afinal, cada dia que passa, me vejo mais interessado por tudo o que envolve a segunda arte. Mas tão logo iniciei a leitura, percebi que o teatro não é apenas um mero detalhe na obra em questão. Ele é como o melhor amigo do protagonista, que pode estar sempre em segundo plano, mas que no geral é de extrema importância para todo o contexto e fundamental para o desfecho. O teatro é o que dá vida ao que é lido ao longo dos 21 atos em que a história é dividida; sem ele nada seria possível.

As primeiras histórias, Truman Capote, tradução de Clóvis Marques, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
José Olympio, 2016, 160 páginas.
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Quando volto ao passado e releio os meus primeiros textos, agradeço os deuses literários pela evolução pela qual passei ao longo dos anos. Mas apenas a experiência de releitura, e a percepção de tal evolução, muito me deixam feliz e orgulhoso. Não por menos a leitura de Primeiros contos de Truman Capote criou em mim a certeza de que ainda precisarei passar por muitas coisas em minhas aventuras literárias.

Apesar de até então não conhecer absolutamente nada da obra de Truman Capote, escritor que faleceu em 1984, não é de hoje que sei de sua importância para a literatura norte-americana. Portanto a leitura deste livro serve como uma preparação para os grandes clássicos escritos por ele, como “A Sangue Frio” e “Bonequinha de luxo”, que agora entraram na lista dos desejados. Mais do que isso, os textos aqui encontrados dão a certeza de que, embora já fosse um escritor promissor, ele ainda melhoraria muito a qualidade de sua obra.

Se tenho a certeza de que Capote evoluiu até chegar ao auge de sua carreira, também tenho certeza de que sua vida está em seus textos, escancarada para quem quiser ver. Talvez a maior prova disso sejam as dificuldades enfrentadas por ele, com o divórcio de seus pais e a sua própria homossexualidade. Vivendo em uma época em que as pessoas eram ainda mais desprezadas e ignoradas pela orientação sexual, tudo o que passou talvez o influenciou a escrever sobre personagens marginalizados, senão pela sociedade como um todo, ao menos pelas pessoas ao redor.

Coração?, Gail Carriger, tradução de Flávia Carneiro Anderson, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Valentina, 2016, 320 páginas.
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Escrever sobre os livros da série O Protetorado da Sombrinha é sempre uma missão desafiadora. Muitas vezes faltam palavras que expressem, com a precisão necessária, o prazer que sinto toda vez que embarco em uma nova aventura protagonizada por Alexia Tarabotti, afinal ela e sua criadora são mulheres incríveis.

Gail Carriger escreve Coração? sem ter mais absolutamente nada para provar sobre a qualidade de seu trabalho. Tudo já está evidente desde Alma?, livro que apresentou esse universo fantástico criado pela autora inglesa. O que parece ser o caso é que a autora queria conquistar ainda mais os seus leitores, mesmo porque aqui são encontradas diferenças significativas no enredo, o que não o impede de ser tão empolgante quanto os títulos anteriores. Vale ressaltar, por exemplo, que dessa vez Alexia não está sob ameaça, porém os fantasmas deixam bem claro que alguém quer matar a Rainha. Resultado? Confusão à vista.

Tão logo percebe a gravidade da situação, a protagonista, que está em um momento muito inconveniente para se envolver em grandes emoções, precisa entrar de cabeça na investigação e, com isso, aos poucos desvenda fatos de muito interesse sobre o passado de algumas importantes personagens. A própria motivação para todo o enredo ganha novos ares após o início da investigação, o que obviamente influencia todo o envolvimento com a trama.

A máquina de caminhar, Cristovão Tezza, seleção de Christian Schwartz, ilustrações de Bennet, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Record, 2016, 192 páginas.
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Organizando eventos literários em minha cidade há quase quatro anos, tive o prazer de conhecer imortais da Academia Brasileira de Letras, escritores premiados e outros que incentivaram o meu hábito da leitura, figuras polêmicas e alguns que não se enquadram em nenhuma dessas categorias. Mas posso afirmar que nenhuma experiência foi tão marcante quanto a viagem de duas horas acompanhado de Cristovão Tezza, que faz parte do time dos premiados.

Quando o amigo Zaga Tessarine me convidou para buscar Tezza, no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, tive de pensar por alguns instantes. Ele participaria, no dia seguinte, da III Semana Edgard Cavalheiro e, como um dos organizadores, ainda precisava acertar os últimos detalhes para que tudo saísse como o planejado. Mas deixei isso de lado e não demorei a aceitar o convite, sem imaginar que essa se tornaria uma das decisões mais acertadas.

Papo vai, papo vem e durante a viagem em direção à Serra da Mantiqueira falamos sobre cachaça, café, altitude, literatura e A máquina de caminhar. Ainda que brevemente, Cristovão Tezza comentou que dentro de alguns meses seria lançado, pela editora Record, um livro que reuniria algumas de suas crônicas, não por menos a leitura desta obra foi para mim como uma extensão daquele riquíssimo e inesquecível papo com um dos maiores nomes da literatura brasileira.

O Quarto Dia, Sarah Lotz, tradução de Alves Calado, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2016, 352 páginas.
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Janeiro de 2017. Uma viagem de réveillon que tinha tudo para ser perfeita se transforma em um verdadeiro pesadelo, digno de filme de terror. Durante cinco dias o navio O Belo Sonhador fica sem qualquer tipo de comunicação e uma possível pane mecânica é motivo suficiente para instaurar o caos entre passageiros e tripulantes, que passam dias de incertezas com mortes suspeitas e fenômenos sobrenaturais.
“Gritou e mordeu a língua quando um peso pousou em seu peito, tirando-lhe o ar dos pulmões. Tentou se soltar debatendo-se, mas os braços não queriam — ou não conseguiam — se mexer. Paralisado, não havia nada que pudesse fazer enquanto um hálito de gelo roçava em seu rosto e dedos frios subiam feito aranhas por sua coxa” (pág. 106).

Batman: Arkham Knight, Marv Wolfman, tradução de Alexandre Callari, 1ª edição, Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2016, 272 páginas.
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Arkham Knight, um dos últimos lançamentos da DarkSide Books, é um livro que impressiona. O design gráfico respeita o estilo gótico do personagem, a tipografia combina perfeitamente, a lateral das páginas é tingida de preto, ele vem com um marcador de páginas em tecido preto e a capa é uma obra de arte. Feita em tecido, como os antigos livros do século XIX, estampa um logotipo do morcego em baixo-relevo, mesma técnica utilizada na lombada, onde se destaca a caveira símbolo da editora. O fato é que o livro é lindo, mas fica a dica, a capa de tecido é bem sensível, você precisará ter um cuidado extra com esse livro, pois ele pode desfiar.

A versão gringa do livro é apenas mais um paperback na estante, não tem nada de mais, o que só ressalta o cuidado da DarkSide quando resolve traduzir e lançar um livro no Brasil. O design e a capa ficaram a cargo do estúdio Retina 78, e a impressão é toda feita no Brasil pela Geográfica. A tradução é perfeita e a revisão cuidadosa, embora alguma coisa tenha sido deixada para trás, mas nada que comprometa.

Se eu comprei o livro pela capa, posso dizer que não me arrependi. Já conhecia o trabalho de Marv Wolfman como roteirista de quadrinhos (Blade, Crise nas Infinitas Terras e Novos Titãs), mas não fazia ideia se ele seria um bom contador de histórias em prosa. Marv Wolfman se mostrou um escritor muito competente, conseguindo inserir muitas informações relevantes sobre o universo DC enquanto desfilava a galeria de personagens psicóticos de Gotham City. Ele mantém um bom ritmo narrativo, apesar do desafio que teve ao adaptar um game para o formato livro. Em algumas passagens parece que estamos em níveis de um game, mas ele faz o possível para não deixar transparecer que se trata de uma versão para um jogo.