Vamos começar já com um breve exemplo de sinopse:
Andrei vai se mudar para o interior do estado com o pai e o irmão mais velho, pois o primeiro vai assumir um cargo público na secretaria da saúde e o outro conseguiu uma vaga de enfermeiro em um hospital particular. Apesar da felicidade dos dois, o jovem de 16 anos não vê essa viagem com bons olhos: ele mal falava com seus amigos de infância e pelo menos ganhava uns trocados consertando computadores. Agora vai para uma cidade sem conhecer ninguém e torcendo para encontrar alguém que precise trocar a placa de vídeo de um PC...
Até aqui não temos nada de diferente do que já ensinei a vocês: Andrei será o nosso protagonista que passa por uma transformação na vida: de garoto reservado da cidade, ele vai ter que recomeçar a sua vida do zero, sem serviço e sem amigos.

Agora temos três coisas que podemos inferir da personalidade dele bem como na do pai e do irmão:
  • O pai dele, além de ser chefe da família, está para assumir um cargo de liderança. Podemos esperar dele uma pessoa segura;
  • O irmão vai assumir um cargo no qual vá lidar com pessoas. Embora não seja pai de família, também podemos esperar dele outro tipo de segurança: a de lidar com pessoas;
  • Andrei mal falava com seus amigos de infância e fazia um bico um tanto quanto solitário: consertar computadores. Portanto, podemos esperar que ele seja uma pessoa tímida, reservada ou até antissocial.
Portanto, faço duas perguntas a você que está lendo este artigo: qual dos três você acha que vai lidar melhor com a mudança para a nova cidade? E caso passem por uma situação difícil, qual dos três vai precisar de mais tempo, terá mais reflexões internas e mostrará que “treme na base” para tomar uma decisão?

Ter dificuldades em dar nome a um conto, crônica, poema ou livro é uma dificuldade tão comum quanto o bloqueio criativo. Afinal de contas, o título de um livro é um cartão de visitas da obra, podendo ser enigmático como em “Cinquenta Tons de Cinza” ou direto tal qual em “A Vida Secreta dos Grandes Autores”.

Caso você tenha dificuldade em dar nome a um trabalho que esteja desenvolvendo, nomeie-o como algo como “sem nome” e passe aos seus amigos e leitores beta e peça sugestões de títulos. Lembrando que não é pelo fato de você pedir uma sugestão que vai acatar com qualquer palpite que derem: se recomendarem algum nome que você ache muito ruim, agradeça e recuse.

Por outro lado, se quiser resolver o problema sozinho, você pode tentar com algo como:

  • Nome do personagem principal, seja ele o narrador, quem será visto como protagonista ou até quem será peça chave de trama e atende pelo nome que soe como apelido (exs.: Branca de Neve e Os Sete Anões, Drácula, As Aventuras de Sherlock Holmes);
  • Raça do protagonista ou de um personagem importante (ex: O Hobbit, O Mulato). NOTA: tome cuidado para não ofender etnias;
  • Animal importante para a trama (exs.: O Gato Preto, Caninos Brancos);
  • Classe ou profissão do protagonista (exs.: A Cartomante, O Exorcista);
  • Grupo importante (exs.: A Sociedade do Anel, A Liga dos Cabeças Vermelhas);
  • Local em que se passe a narrativa ou seja de importância na trama (exs.: Vinte Mil Léguas Submarinas, O Vale do Terror);
  • Objeto de suma importância para a trama (exs.: Silmarillion, A Carta Roubada);
  • Algo que é dito dentro da trama (exs.: O Juízo Final, A Mão Esquerda de Deus);
  • Uma ação que será executada (exs.: Viagem ao Centro da Terra, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias);
  • Combos: Alice no País das Maravilhas (nome + local); Harry Potter e A Pedra Filosofal (nome + objeto); O Conde de Monte Cristo (cargo + local).

Arriscar um nome pomposo (exs.: A Prisão do Olhar, O Cordeiro, Cem Anos de Solidão, Guerra e Paz) também é válido. Um título explosivo (exs.: O Pau, Memórias de Minhas Putas Tristes) também pode soar interessante.

O que não é indicado é o uso de qualquer língua estrangeira se o texto será em português. Você ser um odiador da língua falada no Brasil ou odiar o país. Mas quem vai ler o seu texto, em primeiro lugar, serão os brasileiros. Logo, ninguém é obrigado a entender o significado de nomes como Kagemusha, Blitzkrieg ou The Love and The Madness. Sem contar que um nome em outro idioma pode não ser muito bem entendido quando o texto é lido em voz alta: em meu primeiro conto publicado em uma antologia de tema livre, quis chamá-lo de "A Street Fighting Man" para fazer referência a uma música dos Rolling Stones da qual gosto. Infelizmente, muitas pessoas entendiam "Street Fighter" e a canção foi ignorada (eu era novo e não tinha orientação da organização. Paciência...).
Ah, se arrependimento matasse...
É isso, pessoal. Espero que tenham gostado das minhas dicas e não deixem de comentar sobre o que acharam.

Abraços a todos(as) e continuem escrevendo!

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora, sendo nesta última o organizador da antologia Poderes - Contos sobre Pessoas com Dons Extraordinários. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

Oi, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.

Já vamos começar com um exemplo: suponhamos que você tenha uma ideia bem legal como:
“Três irmãos são criados em algum país europeu pelo pai, já que a mãe faleceu ao dar a luz ao mais novo, durante a Segunda Guerra Mundial. O pai é convocado para lutar e deixa as crianças em uma fazenda aos cuidados de um irmão. Como o tio delas é um alcoólatra agressivo, eles fogem e percorrem a cidade em busca de um lugar para viver enquanto o pai não volta”.
Boa, não acham?

Daí você está desenvolvendo as personalidades: o pai deve ser um homem forte, o tio é um alcoólatra covarde, filho mais velho pode ser um garoto de ação procurando copiar o pai e sendo impulsivo ou precipitado para dar contraste com o irmão do meio, mais analista e inseguro. Daí você não consegue definir a personalidade do caçula... e por que não o elimina?

“Ah, porque eu gosto de Harry Potter, Percy Jackson e Crepúsculo. Lá eles usam trios e eu também quero usar”, você pode justificar.

Mas se você tem época, tempo, personagens com personalidades e trama com objetivo (a sobrevivência dos garotos até o retorno do pai), por que manter um personagem que não fará diferença?

“Porque a história é minha e eu quero mantê-la assim!”, você pode insistir.

Ok. Eu não vou brigar. Mas me darei ao direito de ter uma opinião: você estará cometendo um erro.

Oi, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.

Esse é mais um daqueles artigos que vocês lerão e dirão “isso eu já conhecia. Só não sabia que tinha um nome”. Hoje, vamos falar de plot twist.

O plot twist é o ponto de virada de uma narrativa. Quando o personagem adquire algo novo (um novo item, conhece uma pessoa que será importante para a trama ou alguém que ele conhece passa a agir de forma diferente, quando ele chega em um novo lugar, passa a ter um cargo diferente, etc.) ou perde algo que já possui (sua arma descarrega, seu mestre morre, seu melhor amigo passa a ser um vilão, sua casa é destruída, etc.), estamos falando de viradas cruciais na história.
Duro de Matar: a aquisição de uma metralhadora é um bom ponto de virada.
Alguns escritores mais tradicionais gostam de dividir suas narrativas em três atos exatamente como no teatro onde a função era de suma importância. Ao término de cada ato, as cortinas se fechavam e o cenário era alterado, bem como os atores trocavam de roupas e maquiagem para parecerem mais velhos. E dentro destes três atos, fazer subdivisões para ir colocando os pontos de virada.

Superman versus Goku... Liga da Justiça versus Vingadores... Dumbledore versus Gandalf... Harry Potter versus Percy Jackson...

Quem não adora ou não conhece um bom crossover?

Para quem não conhece, crossover é quando dois seres de universos diferentes se encontram. A galera curte mais imaginá-los lutando. Por outro lado, há quem creia que alguns são tão bons e gentis que dificilmente eles lutariam.
Superman e Goku - Se eles são bons, por que lutariam?
No ramo literário, o crossover pode ocorrer de duas formas: ou quando um autor cria dois mundos, personagens, corporações, etc. e depois faz a união ou quando dois autores, cada um com a sua obra, resolvem fazer a parceria.

O caso mais curioso é de Rick Riordan, que criou a série "Percy Jackson e Os Olimpianos" onde conhecemos os semideuses gregos para depois, em "Crônicas dos Kane", nos apresentar seus magos avatares dos deuses. No fim, lançou um livro especial, "O Filho de Sobek", onde Percy Jackson encontra Carter Kane (mas quem leu as duas sagas, viu leves menções ao mundo de Percy nos livros dos Kane).

Devido à questão dos direitos autorais, nomes de peso na literatura consagrada ou até a literatura pop não fazem parcerias. Por outro lado, o mundo da fanfics aproveita que não tem interesse em ganhar dinheiro com o projeto e faz um James Bond encontrar um Jason Bourne, por exemplo.

Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.

Hoje eu vou falar do gênero que mais escrevo e mais acredito que seja uma boa forma para escritores iniciantes começarem suas carreiras: o conto.

Ao contrário do haicai, o conto não foi criado em um só país. Ao contrário da literatura policial, ele não nasceu graças a um só escritor (Edgar Allan Poe com "Os Assassinatos da Rua Morgue, em 1841. "Um Estudo em Vermelho", o primeiro livro de A. C. Doyle com Sherlock Holmes só foi publicado em 1884). E ao contrário das tendências literárias (também taxadas de "modismo literário". Algo que, a meu ver, soa pejorativo), a arte de escrever contos não começou ontem e nem vai acabar amanhã (assim espero).

Mas se o conto é quase um patrimônio da humanidade... como defini-lo?

Edgar Allan Poe procurava descrevê-lo como algo que pudesse ser lido com apenas uma assentada. H.G. Wells o definia como uma narrativa que pudesse ser lida em meia hora. E Mario de Andrade dizia que conto é tudo aquilo que o autor batizou com o nome de conto.

Difícil, não é mesmo?

Olá, pessoal.
Em primeiro lugar, agradeço a vocês por acompanharem o meu quadro no Overshock até hoje. Chegar a 20 artigos é algo incrível e me deixa muito feliz.

Hoje eu vou falar de um recurso literário que precisa de um pouco de autoconhecimento. Vai ver é por isso que estou tão sentimental...

Flashback, em uma possível tradução, quer dizer voltar (back) rapidamente (flash). Seu significado pode ser encontrado na internet e definido como "interrupção de sequência cronológica pela interpolação de eventos ocorridos anteriormente".

O que tudo isso quer dizer: que flashback é um recurso literário (mas que é usado em qualquer outra mídia como jogos, filmes, desenhos, quadrinhos, etc.) em que o personagem está executando uma ação e graças a alguma coisa no ambiente captada pelos seus sentidos, ele para o que está fazendo e começa a lembrar de algo.

Em seu livro autobiográfico, "Quando o Amor Transpõe o Oceano", a autora Winifred Ethel Netto escreve na pág. 70:
"Se houvesse roupas para passar, eu o fazia"
A meu ver, a mensagem é clara: se houvesse necessidade de passar roupas, ela passava. E se passava, é porque sabia.

Na página 71, temos a seguinte afirmação:
"Eu também não sabia nada sobre passar roupas, mas fazia o melhor possível"
A meu ver, a mensagem também é clara: ela não sabia passar roupas.

Mas ela não sabia antes?
Pobre Snape... esta fala só dá certo nos livros...

A linearidade é a capacidade de colocar tudo em ordem dos fatos: ações A tornam possível (ou não) ações B, que facilitam (ou não) ações C e assim sucessivamente.

Um bom exemplo de linearidade pode ser encontrado na lenda dos 12 trabalhos de Hércules: ao derrotar o Leão de Neméia, o semideus arrancou a pele do animal e a vestiu, ficando invulnerável. Com ela, ficou imune às mordidas venenosas da Hidra de Lerna. Ao matá-la, passou suas flechas no veneno e as usou para matar um bando de aves carnívoras perto de um lago. Agora imagine se a ordem dos trabalhos tivesse sido inversa: Hércules enfrentaria o Leão de Neméia com algumas partes do corpo faltando além de estar envenenado...

Não confundam linearidade com começar a contar uma história desde o seu começo exato. Você pode escolher um momento exato de quando a história começa e, se tiver que contar o passado de alguém, terá que cuidar de todas as arestas para que elas não interfiram no presente. Suponhamos, por exemplo, que você está escrevendo a narrativa de uma mulher que se torna policial aos 23 anos e é parabenizada pelo pai e o noivo na formatura e vai narrar não só a vida dela no combate ao crime como a vida dela até a formatura. Em algum momento da vida dela antes da formatura, você terá que matar a mãe dela e fazê-la conhecer um homem por quem vá se apaixonar, namorar e noivar. Se nada disso acontecer, se prepare para ter uma dor de cabeça e reescrever quase um livro inteiro...

Olá, pessoal. Tudo bem?

Vamos já começar este artigo com um exemplo:
"Marcos entrou no quarto dos pais na ponta dos pés enquanto eles dormiam. A carteira de seu pai estava na mesinha de cabeceira ao lado do celular. Só mais alguns passos e ele poderia pegá-la, tirar o dinheiro dela e comprar doces.
Quando estendeu a mão para obter o dinheiro, o telefone tocou e o pai acordou assustado, perguntando:
— Filho, o que está fazendo aqui?"
Ficou ansioso para saber a continuação?

Isso é normal, pois trata-se de um recurso muito utilizado por escritores: o cliffhanger.

Em uma possível tradução, cliffhanger significa "à beira do abismo". Quer dizer quando a situação chega em um ponto altíssimo e a história acaba bruscamente, deixando o público ávido em saber a continuação.

A internet e as redes sociais facilitaram a publicação de livros, o que por sua vez também ajudou pequenas editoras a criar e divulgar seus concursos, bem como receber e dar feedbacks aos autores.

Para quem não conhece o formato, antologias são livros de contos, crônicas ou poesias com vários autores onde cada um contribui com pelo menos um trabalho.

Em alguns casos, o tema é livre. Outros são específicos (romance, terror, fantasia, steampunk, etc.). Há também antologias que são organizadas para se produzir um trabalho tão fechado que acaba virando um romance fix up (série de contos que se passa em um espaço igual para todos como uma cidade, um prédio ou um dia específico. O personagem de um conto pode acabar encontrando outro de outro texto), mas são raras. Também há casos de antologias em que você precise trabalhar um elemento em comum com todas (“todos os contos devem ter um personagem cego”, por exemplo), mas também são casos isolados.

As antologias são bons lugares para se começar a praticar a escrita e se acostumar com a pressão de ter o seu nome em uma obra impressa (não que o mercado on-line também não tenha pressão. Mas o que é mais fácil: deletar uma postagem ou remover os exemplares dos pontos de venda?). Muitos novatos já sonham com o seu livro sendo adaptado para o cinema ou sua trilogia... quando mal conseguem escrever um bom texto de cinco páginas. E os concursos são uma oportunidade de ingressar no mercado e realizar o sonho de ver o seu nome como autor (ou melhor, coautor) de um livro.

Infelizmente, nem tudo são flores. Há obras riquíssimas em conteúdo no mercado que são citadas em ótimos blogs, sites e podcasts assim como outras geraram dor de cabeça e desgosto para todos os participantes mesmo sendo impressas (sim. Há casos de antologias que iam ser lançadas e a editora fechou as portas do projeto da noite para o dia sem falar nada a ninguém). E o meu objetivo nesse artigo é apenas conscientizar os leitores sobre a importância de um projeto desses.

Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.
Hoje eu vou falar sobre uma das coisas mais difíceis que aprendi junto com a técnica do ponto de vista (não viu? Leia aqui), mas que fez toda a diferença no meu trabalho como escritor.

Hoje eu vou falar de cenas.

Não importa se o livro é em série ou fechado. Cada obra é dividida em capítulos, cada capítulo em subcapítulos, e cada capítulo em trechos que chamamos de cenas. Portanto a cena é a célula de um texto independente de seu tamanho. Uma formiga possui células e uma baleia também, certo? Um conto possui cenas assim como um romance.

Sabe nos filmes quando você diz “adoro aquela parte em que o sujeito entra correndo no aeroporto para impedir a amiga de ir embora e se declara para ela”? Isso é uma cena. Ou quando o personagem está em uma sala olhando os relatórios de lucro da empresa e decide aumentar o salário dos funcionários? Isso também é uma cena.

Uma cena se passa em qualquer lugar. Nela, teremos um personagem (ou mais de um) com um objetivo. Isso é obrigatório.

• Cena = Personagem com objetivo.
Se não há nenhum problema, ele consegue cumprir. Vá pegar um copo com água, por exemplo. Você teve dificuldades?

Deu sede? Vá pegar
Então vamos ao cálculo:

• Personagem: você;
• Cena: você está lendo esse texto e vai pegar um copo com água;
• Objetivo: ir à cozinha, pegar água;
• Resultado: tudo certo;
Daqui em diante, entra tudo que é opcional. Vai de o escritor decidir se ele coloca ou não em sua trama.

Olá, pessoal. Tudo bem?
Vamos já começar com um exemplo:

"Marcos morava sozinho e não tinha o hábito de receber visitas. Certa noite, enquanto tentava dormir, foi surpreendido com um barulho na sala de seu apartamento. Desinteressado, voltou à sua tarefa"
Reparem bem: Marcos vive sozinho. Não recebe visitas. Ouve um barulho na sala... e o ignora?!
Como assim?

Qualquer pessoa agiria em uma situação dessas. Iria se esconder, pegar algum vaso para se proteger, se esgueirar... Mas alguma coisa ia ser feita!

Isso é a verossimilhança. A ligação, nexo ou harmonia dos fatos. Mesmo que o seu personagem não seja um homem (pode ser um animal, robô ou alienígena), é de se esperar que ele tenha reações humanas: ter medo, reagir quando atacado (com fuga ou dando o troco), ser subjugado, não realizar coisas sem treinamento (não leu o meu artigo sobre backgrounds? Leia aqui) e outras coisas.
Doce Vingança: uma garota atrapalhada é molestada e
vira uma ninja assassina que se esconde em uma cidade
que nem os moradores conseguem encontrá-la (?!).
A meu ver, podemos definir que há dois tipos de verossimilhança: a interna e a externa.

Na primeira, trabalhos com o âmago do personagem. Seus medos, seus receios, seus ganhos e custos dentro de uma situação. Exemplo: se um guerreiro aponta uma espada para o pescoço do protagonista, a vida dele está em jogo. E se tal guerreiro é experiente ou o personagem principal está cansado, é insensato reagir. Por quê? Porque o protagonista está correndo o risco de ser degolado, oras!

Na segunda forma, o protagonista trabalha com as informações externas: seus backgrounds e o espaço ao redor justificam seus atos. Outro exemplo: o protagonista é um rapaz no Brasil, ex-militar que foi dispensado do serviço e trabalha como faxineiro. Ele dirige seu fusca até o trabalho e encontra uma mulher sendo atacada por um zumbi. Ele vai salvá-la tirando um taco de beisebol do porta-malas? Claro que não!

Olá, pessoal. Tudo bem?
Hoje vamos falar de uma técnica de escrita bem delicada e que gera controvérsia entre autores, mas que dá ótimos resultados quando bem empregada. Eu já havia dado umas pinceladas sobre o assunto em meu artigo sobre narração (link aqui), mas acho que agora podemos aprofundá-la mais.

Vamos falar de Ponto de Vista, ou PdV. Nota: há artigos em que ele é abreviado como PoV, que vem do inglês, “Point of View”. Mas eu vou chamá-lo de PdV.

Lembram dos jogos em terceira pessoa? Vocês enxergam aquilo que está à frente do personagem. Se virá-lo para a direita, enxergam o que está ao seu lado e deixa de ver o que estava a frente dele, certo?
Quem disse que o PdV é técnica exclusiva dos livros?
Isso é o PdV. É uma “câmera” que fica nas costas do personagem e nos diz o que ele vê e como vê as coisas. Pense em um homem do século VI trazido ao nosso mundo. Como acha que ele vai descrever os carros, a TV ou um computador?

Dois bons exemplos de PdV bem empregados foram nas sagas “Harry Potter” e “Percy Jackson”. Na série britânica, conhecemos o mundo bruxo pelos olhos de um leigo (Harry) e aprendemos com ele. Na americana, idem. Já imaginaram se os dois livros fossem, respectivamente, narrados pelo Rony (que já é bruxo) ou pela Annabeth (que já conhece os deuses gregos)?

Agora uma coisa especial dessa “câmera”: ela entra na cabeça do personagem e vai descrever o que ele pensa, sente ou acredita. Isso faz com que ele possa interpretar coisas erradas e seu erro faz com que ele seja igual a nós. Já falaram com uma pessoa e acharam que estava tudo bem quando na verdade não estava? Pois bem. Esse é o PdV dela e você viu tudo pelo seu.

Se entrássemos um segundo na cabeça dele,
saberíamos que ele era um cara legal...
Quando um escritor diz “fulana ficou confusa”, entramos na cabeça dela e sabemos o que ela está pensando/sentindo. Como uma pessoa reage ao ficar confusa? Quais são seus gestos, expressão facial ou tom de voz? Isso deve ser interpretado pelo personagem que está narrando o conto/livro e não o narrador em si. Há um limite para a onisciência.

Os leitores mais atentos devem estar se perguntando: PdV é escrever em primeira pessoa?

Nem sempre. Vejamos os casos:

Já ensinei vocês a se inspirarem na própria vida de vocês ou na de conhecidos, assim como os instruí a trabalharem com narrativas que admirem.

Agora uma coisa que poucos escritores estudam são os métodos de produção de outro escritor. E é o que quero passar hoje.

Quando digo "métodos de produção", não espero que bebam café e roam os grãos como Balzac assim como não acho que escrever em uma banheira com espumas tal qual Agatha Christie seja a solução que precisem. De fato, encontrar o meio certo para se animar (local, horário, a manuscrito ou no computador, ouvindo música ou em silêncio, etc.) faz parte do processo criativo. Por outro lado, também creio que seja preciso definir metas que você quer alcançar com ele.

O que você espera que esse livro faça: o público rir? Chorar? Pensar? Você quer escrever uma obra como um Neil Gaiman ou um Nick Farewell?

Escrever um livro é quase como abrir uma empresa. É preciso planejamento, definir metas e estar pronto para recalcular tudo, excluindo sonhos e colocando conquistas.

Vamos ao passo a passo:

Olá, pessoal.
Vamos continuar com o nosso projeto de trazer ideias para vocês começarem a escrever as suas obras. Na primeira parte (A Oficina 10) eu passei métodos de organização e na última (A Oficina 11) dei dicas sobre como usar a vida de vocês ou de outras pessoas para escreverem suas narrativas. Se não leu, recomendo a leitura.

Leitura em dia? Ok. Então vamos em frente.

Em primeiro lugar, quero tranquilizar o leitor que estiver pensando “isso não é plágio?” pelo seguinte fato: você não vai escrever a narrativa de um garoto chamado Harry, que mora na Inglaterra e descobre que é um bruxo. Você vai contar a sua narrativa se apoiando no que tiver lido. E se ainda tiver dúvidas, veja as descrições de Gandalf (A Sociedade do Anel) e Dumbledore (A Ordem da Fênix). A semelhança não é coincidência.
Você NUNCA notou como eles são parecidos?
Como já disse na parte 2, é preciso fazer enxertos na narrativa na qual vai se apoiar para a sua obra ter personalidade e diferencial. Sem contar que ninguém é obrigado a fazer algo 100% igual (porque aí sim será plágio!).

Então quando trabalhamos com histórias já criadas, é sempre bom cruzar mais de uma, pois quanto mais coisas você mesclar, mais seu trabalho ficará diferente do original e mais você poderá fazer referência aos títulos que gosta (ou odeia).

Olá, pessoal. E aí, conseguiram se organizar?

Então vamos para a segunda parte dessa série de artigos.

Antes de tudo, gostaria de agradecer aos elogios que recebi na primeira parte publicada anteriormente. Se não leu, leia aqui.

Leitura feita com sucesso? Então vamos para a parte 2. Espero que estejam tão animados quanto eu estou em dividir ideias com vocês.

Já ouviram alguém dizer “acho que a minha vida daria um livro”? Pois bem. Há duas verdades em tal afirmação. A primeira é que a vida de todos daria um livro. E a segunda é que se uma pessoa próxima a você tem uma vida tão interessante, escreva!

Caros leitores, eu nunca parei para fazer um censo entre vocês e saber suas idades, estados civis ou formação acadêmica. Todavia, a primeira dica primordial para escrever um livro/conto é que façam um recorte na vida de vocês. Escolham uma parte que achem interessante, independente de quantos dias, meses ou anos o evento ocorreu. Pensem em algo como:
  • O melhor/pior emprego que você já teve;
  • Seu (sua) primeiro (a) namorado (a);
  • Sua vida com o seu animal de estimação;
  • Seu melhor/pior ano escolar;
  • Etc.

Olá, pessoal.

Recentemente percebi que muitas pessoas gostam dos meus artigos. Mas a maioria dos comentários são a mesma coisa: só não escrevo um livro porque não tenho ideias.

Então como gosto da frase “ou somos parte do problema ou parte da solução”, resolvi começar essa série de artigos sobre como ter ideias para escrever um conto ou até um livro inteiro.

Como viram no título, essa é a primeira parte de uma série de artigos. Sinceramente, não tenho a previsão de quantos serão, pois tratarei o assunto de forma delicada e gradual. Então espero que gostem.

***

Há cinco coisas que devem ser levadas a ferro e fogo pelo o aspirante a escritor (isso não está em ordem de hierarquia. Todas são pré-requisitos mínimos):

1. Método de anotar ideias e arquivá-las.

Nunca confie no poder da sua memória. Então sempre tenha em mãos algo para registrar suas ideias: um caderno grande ou pequeno, um bloco de notas ou até o celular com gravador de voz e/ou bloco de notas são ferramentas úteis para registrar aquilo que vale a pena.

Feito isso, pense em uma forma de arquivar suas ideias: guarde o seu caderno em uma gaveta que ninguém vai mexer e você vai lembrar que ele está lá, use um fichário ou salve tudo em uma pasta no seu computador e use um pen drive de backup. Nada seria mais triste do que ter aquele bloco de notas cheio de ideias para textos sendo usado como caderno para anotar telefones pela sua tia ou ter que formatar o PC por causa daquele irmão mais novo que vive acessando a sites que trazem até o vírus da dengue para o computador...

Antes de começar com o tema, gostaria de convidá-los a pensar sobre a seguinte questão: por que as pessoas gostam tanto de ler?

Há várias respostas para essa pergunta. E uma delas é “identificação com o personagem principal ou um dos antagonistas”.

Daí, abrimos espaço para outra pergunta: como criar um personagem com o qual o público possa se identificar?

A resposta é simples: dando características humanas aos personagens!
Galinho Chicken Little: personagem bem definido entre o que pode ou não fazer.
Pense comigo, caro leitor: quais matérias escolares você se dá bem e quais as que menos gosta? Caso já seja formado, quais matérias escolares são úteis no seu emprego? E suas habilidades em se locomover pela cidade onde você mora, arrumar sua casa ou adquirir somente os produtos que precisa a preços acessíveis?

Você é o que é e sabe o que sabe pelas suas oportunidades e escolhas que teve ao longo da vida. E o seu personagem não pode ser diferente. Não é humano. E não importa se ele é um alienígena ou um animal falante de alguma fábula, criamos obras com as quais nos identificamos e esperamos que o público encontre um pouco de si nelas.

A palavra “background” quer dizer “fundo” em inglês. No ramo da escrita, significa o passado do personagem até o capítulo 1 do livro.

Vamos dar um exemplo de uma premissa de um livro/conto/novela, para sermos mais práticos:

Segundo o dicionário Houaiss de 2010, descrever é:

1. Representar por escrito ou oralmente, no todo ou em detalhes;
2. Contar em detalhes.
Logo, podemos concluir que a descrição é dar informações sobre tudo que está na obra: o protagonista, os coadjuvantes, o inimigo, o cenário e os itens.

Por que isso é importante: escrever um livro não é como produzir um filme, seriado ou desenho animado. Nas obras mencionadas, o recurso da imagem faz toda a diferença. Com ela, você mostra ao público como as coisas são em cor, formato, utilidade e localidade. Sem contar os clássicos easter eggs, que são aquelas imagens ao fundo que fazem referência a outras obras do mesmo diretor (como os de Star Wars em Indiana Jones) ou que querem dizer que as duas obras se passam no mesmo mundo (como vimos em todos os filmes que geraram a produção de Os Vingadores). Enquanto na escrita, o autor vai dizendo como são as coisas. Se ele quiser fazer referências a outras obras criando um lutador chamado Axe Dyassis (Axe = Machado. Dyassis = de Assis. Logo, Machado de Assis), fica a critério dele.
C3PO e R2D2 em hieróglifos: é preciso uma dose adequada de descrições para fazer isso em um livro.

A questão é: será que tudo precisa ser descrito em seus ínfimos detalhes?

Vai do bom senso do autor e da sua necessidade em dizer como é a vida do personagem. Vamos por partes:

Hoje vamos falar de uma das partes mais marcantes de um texto. Afinal, se os atos de um personagem dão uma definição de quem ele é, você não pode esperar humildade de um sujeito que diz ser “gênio, playboy, bilionário e filantropo” e nem que uma pessoa que diz “não existe trabalho ruim o ruim é ter que trabalhar” possa ser um bom exemplo.
Se você fizesse uma pergunta a esses personagens,
quais diriam "pode pá, véi", "certamente" e "clalo"?
Segundo o Houaiss de 2010, um diálogo é:
  1. Fala entre dois ou mais indivíduos;
  2. Conversa;
  3. Conjunto de palavras trocadas pelas personagens de um romance, filme, etc.

O que podemos concluir?

Que um diálogo é apenas uma transcrição da forma como uma pessoa se comunica. Você pode criar um personagem como os retratados em filmes brasileiros, que só faltam falar “bom dia, p****!” ou você pode criar um personagem que faz de suas falas a forma como ele é reconhecido. No livro “Musashi”, o guerreiro Sasaki Kojiro não precisava ser descrito. Bastava vê-lo entrar em cena dizendo “Varal [nome da sua espada] está com sede de sangue” e todos sabiam quem era que chegava e quais as suas intenções.