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A madrugada avançava, no entanto os minutos pareciam demorar uma eternidade para dona Márcia, mãe de William. Ela continuava sem notícias sobre o estado de saúde do filho. Estava à base de xícaras e mais xícaras de café e chá, o que não foi suficiente para diminuir sua ansiedade. A cada aparição de funcionários do hospital, uma nova pergunta que insistia em continuar sem resposta. Afinal, quando que as perguntas são respondidas em momentos delicados como esse?
Impaciente, Márcia caminhava de um lado para outro pelo corredor do hospital. O suor escorria por seu rosto e os olhos mostravam a tristeza de uma mãe que queria apenas ver seu filho vivo. Uma mãe que não sabia se poderia abraçá-lo novamente; não sabia se continuaria a ver o encantador sorriso de seu garoto.
Nos raros segundos de calmaria, se lembrava dos momentos bons ao lado de William, um garoto problemático e ainda assim de bom coração. Por muitos anos William deu trabalho aos pais e motivos não faltavam para criar desgosto. Isso nunca aconteceu com Márcia e seu finado marido, que se orgulhavam do filho. Sabiam que um dia ele faria a diferença na vida de alguém. Isso iria acontecer, era o que Márcia esperava.
Agora ele estava com a vida nas mãos de Deus e para ela restava apenas orar pedindo a proteção que o marido não teve meses antes.
Com um terço nas mãos, Márcia rezou, enquanto lágrimas cobriam seus olhos negros. Não era uma mulher religiosa e também não podia deixar de pedir proteção a uma força divina. Seu filho necessitava.
- Pai nosso, que estais no céu; santificado seja o Vosso Nome...
- Dona Márcia? – uma voz masculina interrompeu a oração da mulher – Desculpa interrompê-la.
Não conhecia a voz, mas por ser a primeira vez que alguém lhe chamava desde que chegou ao hospital teve esperanças. Isso tinha um único significado: as notícias haviam chegado. Só esperava que fossem boas.
- Olá, doutor. – levantou rapidamente e olhou um crachá que indicava a posição do homem a sua frente. Era um homem baixo, cerca de quarenta anos, e seu rosto oval estava coberto por uma longa barba negra, que deveria estar ali há anos – Como está meu filho? Ele está bem, não é mesmo?
- Sente-se, por favor. – pediu, sentando-se ao lado dela.
- Por que essa formalidade? Aconteceu alguma coisa?
- O jovem é um rapaz forte, felizmente.
- Como meu filho está?
- Dona Márcia, você precisa ser forte para apoiar seu filho. – ele pausou, para desespero da mãe – Conseguimos controlar a situação, porém as notícias não são tão animadoras.
Em silêncio e aflita ela continuou olhando ao médico procurando por respostas.
- Seu filho continua em coma induzido... Na verdade ele perdeu muito sangue e vai precisar de um doador. Como a senhora deve saber, ele tem um tipo sanguíneo muito raro.
Nenhuma resposta.
- Vamos continuar observando-o. Só precisamos encontrar um doador o quanto antes.
- Ele vai sobreviver? Meu filho vai sair dessa situação? – a voz de Márcia era profunda. Acostumado com aquele tipo de situação, o médico pegou a mão da mulher e a apertou antes de responder com sinceridade:
- Estamos esperançosos, mas, repito, precisamos encontrar um doador. Só assim posso afirmar que William sobreviverá.
- O que eu posso fazer para ajudá-los?
- Tenha fé em Deus. Ore para que seu Deus esteja ao lado de seu filho. No mais, a minha equipe vai fazer o possível e o impossível para trazer seu filho de volta.
Meio sem jeito e com o coração de mãe falando mais alto, dona Márcia abraçou o médico e agradeceu:
- Obrigada doutor. Obrigada e que Deus o abençoe hoje e sempre.
O médico retribuiu o abraço e perguntou se ela desejava visitar o filho, que continuava na UTI. Ela teve medo de não suportar a dor em ver William ligado a diversos aparelhos. Só depois de muito pensar resolveu aceitar. Precisava estar ao lado dele para apoiar no momento em que mais precisava. Buscou forças onde não havia para mostrar ser uma mãe forte e guerreira, que não hesitava ao cuidar de seu filho.
Lentamente caminhou pelos corredores frios do hospital. Os batimentos cardíacos acelerados e as mãos suadas. Quando Márcia e o médico se aproximaram da UTI, ele apontou em uma direção e deu espaço para que ela fosse sozinha. Ela se aproximou de um vidro que separava o corredor do grande quarto onde seu filho estava sedado, ao lado de outros pacientes. As lágrimas surgiram quando viu William com uma expressão dolorida se esforçando para respirar, mesmo com a ajuda de aparelhos. Márcia perdeu os sentidos. Suas pernas ficaram bambas e conseguiu apenas pedir proteção a Deus antes de desmaiar e ir de encontro ao chão.
Nem mesmo uma mãe guerreira é capaz de suportar a dor de ver seu filho entre a vida e a morte. Ela não queria acreditar, mas algo lhe dizia que a morte estava muito mais perto.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)











