- Desculpas e Segredos –
- É claro que eu sou inocente. – Wellington estava aliviado e ao mesmo tempo chateado por ter sido acusado injustamente – Tivemos nossas brigas, mas jamais teria uma atitude como essa contra William. Você, - olhou para Thaís – sabe como eu sou grato a ele.
Ela assentiu e disse em seguida:
- Então acho que você deve ir ao hospital conversar com ele e se explicar. Vá se trocar – ordenou.
Wellington tinha receio de visitar William, porém também precisava entender o que o levou a pensar que ele estava envolvido na tentativa de matá-lo. Pensando por esse lado, o rapaz deixou o quarto de sua mãe e foi ao seu, onde se arrumou rapidamente.
Envergonhada pela atitude, Thaís sentou-se na cama e passou a arrumar a bagunça que havia feito no local. Franccesco ajudou e aproveitou para tentar entender as coisas que aconteceram nos últimos minutos:
- Que intimidade toda é essa? Desde quando vocês se tornaram amigos?
- Já disse que conheço a mãe dele. Só demorei a ligar o rosto à pessoa.
Franccesco Fracalossi fingiu acreditar. Estava claro que a delegada estava escondendo algo e que não revelaria seu segredo facilmente. Ele precisaria usar seu faro detetivesco para descobrir a verdade e passou a usar sua habilidade no mesmo instante. Não obteve sucesso. Morreria sem conhecer o segredo de Thaís.
Quando Wellington voltou ao quarto, os ajudou a guardar a bagunça e só então os três deixaram a casa, voltando em direção ao hospital. A delegada não estava mais preocupada e guiou o veículo com tranquilidade, não se importando com o congestionamento, que continuava impedindo que seguissem em uma velocidade considerada normal. Nem por isso ligou a sirene. Realmente não estava com pressa. Parecia aliviada.
Demoraram a chegar ao hospital, mas quando já estavam em frente ao prédio subiram rapidamente ao quarto andar. O jovem baleado dias antes ainda não sabia que seu amigo e companheiro de banda era inocente e ao vê-lo teve uma surpresa desagradável. Estava revoltado e sem entender o motivo da visita. Franccesco, com a calma que muitas vezes lhe faltava, explicou a verdade a William. Nos primeiros instantes o jovem se recusava a acreditar, bem como sua mãe havia alertado. Só depois de muita insistência percebeu que era a pura verdade, afinal, Franccesco era amigo de seu pai e jamais faria algo que pudesse lhe prejudicar.
- Posso saber por que você acreditou que eu tentaria te matar? Somos amigos, cara!
- Você sempre achou graça de ter uma arma em casa... Eu fui baleado. – o rapaz parou e se ajeitou na cama antes de prosseguir - É como somar dois mais dois.
- Se não fosse por você jamais realizaria meu sonho de gravar um disco. Você mudar o estilo de banda foi uma puta sacanagem, mas...
- Descul...
- Não precisa pedir desculpa, meu irmão! – Wellington se aproximou da cama e deu um forte abraço no companheiro.
Ao perceber a aceitação e a calmaria entre eles, delegada e detetive resolveram deixar o quarto. Os dois companheiros de banda precisavam ter uma longa e merecida conversa. Esperando no corredor, Franccesco puxou conversa com sua amiga, ainda estranhando suas últimas atitudes:
- Vai me explicar o que aconteceu com você? – perguntou ao envolvê-la em seu braço.
- Não aconteceu nada. – permanecia misteriosa – Só não queria que esse caso voltasse à estaca zero.
- Isso não iria acontecer. Os verdadeiros envolvidos já confessaram, se esqueceu?
- Claro que não. Só não se esqueça de que algo poderia estar errado. Eu precisava ter alguma atitude.
- A maneira como você ficou nervosa e como você tratou Wellington... Confesso que cheguei a pensar que vocês tinham um caso. Se você quer saber, fiquei feliz por pensar nessa possibilidade – tinha um sorriso tímido.
- Aí, credo, Franccesco. – apesar das palavras, sua expressão não era de nojo – Tenho idade para ser mãe dele.
- Mas não é...
- Isso não significa que eu iria transar com um moleque de 25 anos. Que ideia maluca.
- Quando falo que você vai ficar pra titia, ainda sou... – não esperando ele completar, Thaís Fontaine lhe desferiu um soco na altura do estômago, arrancando um grito de dor – Aí, sua desgraçada.
- Não grita como uma mocinha porque estamos em um hospital... Ah, a próxima vez vai ser pior. – o alertou, acariciando seu rosto coberto por uma fina barba. Thaís tinha uma expressão irônica. - Escuta o que eu estou dizendo, amorzinho.
- Nunca vou entender as mulheres.
- Mulher não se entende. – estava convicta – Apenas aceita o que ela diz e cala a boca para não sair na pior e acabar perdendo os dentes.
Thaís e suas frases prontas. Se ela soubesse como estou cansado de ouvir essa frase... - Franccesco sentiu a indireta e preferiu permanecer em silêncio, esperando a volta de Wellington. Não se importou quando Thaís deitou em seu ombro e aproveitou esse momento de paz para levar seus pensamentos a lugares distantes. Ele se perguntou qual seria o segredo de Thaís, sem imaginar que a resposta jamais seria revelada a ele. Só se livrou de seus devaneios quando a porta do quarto se abriu e Welington passou por ela, anunciando que William Herz queria conversar com o italiano. Ele atendeu ao pedido, deixando-o com Thaís:
Franccesco já não estava presente, porém algo impedia que tivessem uma conversa. Só depois de alguns minutos Wellington resolveu não enrolar a falar sobre um assunto que estava lhe atormentando desde que viu Thaís pela primeira vez no dia:
- Por que você mentiu? Está com vergonha de mim?
- Claro que não, meu filho. – a delegada respondeu, envergonhada – Só não quero contar a verdade para ele. Conheço Franccesco mais do que você imagina e sei qual seria a reação se eu contasse que... Você sabe.
- Ele é seu amigo e eu sou filho, poxa. Você não pode mentir sobre mim.
- Quero apenas evitar confusões, meu filho. Por favor, entenda a sua mãe. Quando chegar o momento certo a verdade será revelada, eu prometo.
- E quando será o momento certo? – indagou - Até quando você vai levá-lo na nossa outra casa apenas para que ele não me veja?
- Até o momento apropriado, meu filho. Só espero que esse momento ainda seja em vida...
A situação sempre incomodou Thaís, assim como também incomodou Wellington. Ele sabia que não podia fazer nada para mudar a própria história. Cresceu sabendo que sua mãe fora abandonada pelo pai e que ela sempre teve medo de revelar a verdade ao seu melhor amigo. Segundo Thaís, se Franccesco soubesse do ocorrido mais de duas décadas antes, não deixaria aquela história quieta e essa não era a intenção da delegada, que não queria correr o risco de ver seu amigo atrás das grades por tentar defendê-la. Não queria ser a responsável por isso. Dizia que estavam bem sem esse tipo de confusão. Já Wellington, não aguentava esconder a própria mãe. Aceitava apenas por amá-la. Faria tudo o que ela achasse certo, e se mentir deixasse Thaís feliz, assim faria.
Wellington sempre chorava ao lembrar-se da história e isso se repetiria dias depois. Ficaria depressivo e deitado o dia todo, querendo gritar ao mundo que aquela mulher era sua mãe. Sua vontade era grande, mas suportaria, pensando apenas no bem de quem mais o amava. Assim como William, o baixista tinha um temperamento forte, às vezes arrogante e complicado. O que poucos sabiam era que por trás do rosto bonito e do corpo bem definido, existia um simpático e atencioso homem que passaria a vida sem conhecer ao próprio pai; sem saber o quanto pode ser essencial a presença da figura paterna.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)











