Após terminar seu relacionamento com Priscila, William permaneceu internado por mais alguns dias, refletindo sobre estar ou não fazendo a escolha certa. Por saber que o fim provisório do relacionamento seria bom para todos, não pensou na possibilidade de voltar atrás em sua escolha.
Quando deixou o hospital, ainda precisou fazer tratamentos para voltar a sua boa forma. Seria a última vez que o dinheiro faria a diferença em sua vida. Pelo menos diferença positiva.
William não mais encontrou com o detetive italiano Franccesco Fracalossi, que voltou para sua cidade e continuou com os trabalhos diários de sua agência de detetives. Ele já estava em casa quando descobriu que Jéssica, amiga de sua ex-namorada, não foi presa e responderia o processo em liberdade, já que de alguma forma participou da armação que poderia ter resultado em sua morte. Gabriela foi enviada para uma prisão feminina no interior do estado, enquanto Luciano continuou preso na própria cidade. William chegou a falar com Thaís Fontaine, que lhe contou que Luciano apanhou de outros presos ainda em seu primeiro dia na cadeia. Isso deixou William feliz. Sabia que era um sentimento ruim para a nova fase de sua vida, porém pouco importava. Se ele não poderia se vingar, outras pessoas fizeram isso por ele.
O tempo passou e sua relação com Priscila continuou a mesma. Não houve contato de nenhuma das partes. William teve vontade de ligar para ela e saber como estava. Por amá-la, se preocupava, mas isso não importava para ela, que não lhe daria a chance de ao menos uma conversa. A garota deixou claro que o relacionamento não teria volta. Ele precisaria reconquistá-la e faria isso apenas quando tivesse sua vida normalizada.
Wellington foi a segunda pessoa para quem William revelou o que pretendia fazer. Depois de muita conversa, o baixista entendeu a intenção de seu amigo, porém recusou que ele abandonasse a banda:
- Não, William, você não pode deixar a banda.
- Cara, preciso deixar o dinheiro de lado. Continuar com a banda não adiantaria nada.
- Claro que adiantaria. – tentou convencê-lo – Demoramos pra assinar um contrato profissional e agora podemos ganhar dinheiro fazendo aquilo que gostamos. Para você seria um emprego.
- Esse é o problema, Wellington.
- Não vejo onde isso pode ser um problema. Você vai ralar pra ganhar a porra da grana.
- Chegamos aonde chegamos porque apostei todas as fichas. Você sabe que meu dinheiro fez a diferença.
- De que adianta você querer mudar se você continua com esse pensamento egocentrista?
William não respondeu. Percebeu que seu amigo tinha razão. Sua pretensão era mudar e ainda continuava com pensamentos egoístas, sem deixar de lado sua vontade de ser o centro das atenções. E quem é que consegue mudar tão repentinamente?
- Você tem razão – admitiu.
- Claro que tenho razão, William. Chegamos ao sucesso com o seu dinheiro? – perguntou para o vocalista, mas não esperou pela resposta – Sim! O que não significa que não temos qualidade para fazer sucesso sem o uso de seu dinheiro. A nossa banda não é nada sem a sua presença. Se for para você sair, a banda precisa chegar ao fim.
- Isso não pode acontecer!
- Sem você isso será necessário.
- Vou dizer o mesmo que disse a Priscila quando comentei sobre isso: quando eu conquistar tudo o que preciso, vou voltar e se você ainda me quiser, estarei disposto a retornar com a banda.
- Não podemos deixar a banda de lado, William. Temos shows marcados, apresentações na TV, eventos...
- Desculpa, Wellington. Não pretendo mudar de ideia.
- Acho que você continua cometendo seus velhos erros. Continua pensando apenas em você. Bom, que se foda. Sou seu amigo e vou te apoiar. – abriu os braços para abraçar o amigo – Só que é você quem vai contar aos fãs sobre a pausa. Não disse isso antes, mas... – ainda estavam abraçados - Seu desgraçado, você quase me matou ficando naquela cama de hospital.
Os amigos gargalharam e a conversa continuou. Relembraram velhas histórias que jamais seriam esquecidas. Não pareciam mais aqueles dois companheiros de banda, que meses antes brigaram por questões musicais. Voltaram a ser os dois reais amigos de anos antes, quando as únicas brigas eram sobre futebol e... Futebol. Todo garoto que se preze tem essas brigas com seus melhores amigos e com eles não foi diferente.
Dias depois, William convocou uma coletiva de imprensa e anunciou a pausa da banda. Todos queriam saber o motivo, mas ele não conseguiu ser sincero e respondeu:
- O que aconteceu comigo rendeu um momento de inspiração e vamos aproveitar isso para trabalhar em um novo CD.
Não era totalmente mentira. Enquanto estivesse na rua, William pretendia compor, mesmo sem a companhia de seu violão, seu companheiro de todas as horas.
Algumas semanas depois de quase ser assassinado, ele estava pronto para abandonar sua vida. Acordou cedo na manhã de 4 de agosto de 2013 - exatamente um ano após o crime. Como costumava fazer aos domingos quando ainda era criança, foi à missa, algo que não fazia há anos, e pediu proteção a Deus. Não era religioso e só fez isso por insistência de dona Márcia, que ao ser informada sobre a loucura do filho, ficou indignada e pediu para ele mudar de ideia. A repreensão foi em vão, por isso sua única solução foi convencê-lo a conversar com Deus e ele não ousou em discutir com a mãe.
Voltando da missa, ele fez questão de almoçar ao lado da mãe. O prato escolhido? Macarronada, indispensável na mesa de domingo de qualquer família.
Quando terminou sua refeição, William subiu ao segundo andar e entrou em seu quarto. Colocou tudo o que precisaria em suas aventuras pela rua: fósforos, conjunto de costura, um agasalho, um saco plástico, apenas uma troca de roupa, o livro mais importante de sua vida, um caderno para suas composições, e uma foto de seu finado pai. Não sabia o que realmente usaria, mas segundo um site da internet, este seria o kit de sobrevivência ideal e ele tinha a certeza de que sobreviver na rua era um grande desafio.
Já estava preparado quando voltou ao primeiro andar de sua casa e encontrou dona Márcia, com um olhar entristecido por ver seu pequeno pássaro alçando voo. Um voo que ela nunca imaginou que pudesse acontecer e que ela ainda tinha esperanças de impedir.
Mãe e filho deram um caloroso abraço e sussurrando ao pé do ouvido do filho, ela perguntou:
- É isso mesmo que você quer, meu filho?
- Eu preciso fazer isso, mamãe.
- Promete pra mim que vai se cuidar e vai voltar inteiro?
- Vou voltar inteiro e mudado. A senhora vai se orgulhar de mim.
- Eu já me orgulho de você. Não é preciso de nada para aumentar o amor que sinto. William, você é a única coisa que tenho na vida e eu te quero por perto. Não vou suportar sua ausência.
- Mamãe - sua vontade era continuar abraçado a ela e permanecer no colo de quem o amava verdadeiramente, contudo era preciso começar sua nova vida –, só quero provar o meu valor.
- Seu valor? É impossível dar um valor a você, meu querido.
Ele não respondeu. Não queria uma discussão em sua despedida.
- Quando você volta? – depois de um silêncio profundo, ela perguntou.
- Quando sentir que estou preparado para mostrar que não sou dependente do dinheiro.
Com essas palavras, William abraçou sua mãe novamente e beijou a face da senhora, pedindo sua benção – o que também nunca fez em mais de dezenove anos – e só então deixou a casa. Saiu sem a certeza do que faria a partir de então. Não sabia se iria para uma praça, se procuraria um emprego ou um lugar para ficar. Não sabia qual seria a reação de outros moradores de rua. A única certeza era: sua vida não teria a mesma facilidade que tinha até então, e ele teria que suportar todas as mudanças, sem hesitar. William Herz não teria seu dinheiro e precisava aprender a sobreviver sem ele. Uma missão difícil e que só os fortes conseguiam realizar. Restava saber se ele seria forte, ou mais um fracassado na dura realidade humana.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto), Espírito Santo do Pinhal, junho de 2012
Essa foi a segunda temporada da série “William, seu dinheiro e...”. Ao longo de cinco meses foram 20 capítulos que deram sequência a primeira temporada a partir da investigação do que aconteceu com o personagem principal. Personagens de outras obras também estiveram presentes, como Franccesco Fracalossi e Thaís Fontaine, e contribuíram para o desenvolvimento de William Herz, que em 2013 passará a se aventurar pela rua, até que sua história tenha um desfecho – seja ele feliz ou não. A terceira e última temporada dessa série só volta em agosto, porém aproveito para agradecer a todos os leitores que dedicaram seu tempo para acompanhar essa história, comentando e sugerindo situações/modificações. O que ainda está vago será esclarecido na terceira temporada, então conto com a leitura de todos!











