Belle, Lesley Pearse, tradução de Bárbara Menezes, Carolina Caires Coelho e Elisabete B. Pereira, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 560 páginas.

Apesar de ter se tornado escritora apenas aos 49 anos, Lesley Pearse não demorou a atingir relativo sucesso com seus livros, principalmente no Reino Unido, onde é uma das romancistas mais amadas da atualidade. Sua principal característica é a incansável pesquisa, que foi fundamental para a construção de Belle.
Narrado em terceira pessoa, o livro conta a história de Belle, uma garota de quinze que passou a vida inteira morando em um bordel, mas sem conhecer o que realmente acontecia com as garotas que moravam ali.  A verdade é revelada a Belle de uma forma um pouco chocante, quando ela vê um homem assassinando uma das garotas que ganhava a vida no bordel.
Por ser a única testemunha, o assassino não demora a sequestrar Belle e a levá-la para Paris, onde ela começa a sentir na sua própria pele, o que outras garotas como ela eram forçadas a fazer. Por fim, Belle é levada para o outro lado do Atlântico, em New Orleans, onde ela precisa aceitar o que lhe foi imposto, para assim ter a esperança de que um dia sua vida volte ao normal.

“O pequeno jardim no Embankment estava muito bonito. A neve nos caminhos estava pisada, mas era espessa, fresca e branca nas árvores, arbustos, grama e corrimões de ferro. Era um lembrete para Belle de que há apenas poucos dias ela era tão inocente como a neve fresca, mas que o terrível homem tinha pisado na pureza de sua mente e lhe mostrado a dura realidade” (pág. 55).

Belle é o segundo livro de Lesley Pearse a ser lançado pela editora Novo Conceito, e se Roubada já conquistou inúmeros fãs, esse pode fazer o mesmo, já que é um livro simplesmente incrível. O tipo de livro que é impossível de se esquecer, e que consegue emocionar e deixar o leitor engasgado por tudo o que esse encontra nas mais de quinhentas páginas tão bem elaboradas pela talentosa mente de Pearse.
Para começar, vale lembrar que o tema retratado em Belle, apesar da história se passar no início do século passado, é ainda muito atual. Parte disso é mostrado na atual novela global no horário nobre, e também em recentes livros, como Cruzando o Caminho do Sol (Resenha). Em todos esses exemplos, a prostituição e o tráfico de pessoas chega a causar revolta por sabermos que não são apenas atitudes que acontecem na ficção.
A própria Lesley Pearse, ao responder algumas perguntas presentes nas últimas páginas de seu livro, disse que o tráfico de mulheres e crianças era, e ainda é um mercado muito lucrativo. Não importa a época retratada. Enquanto houver homens capazes de maltratar uma mulher de forma tão brutal, haverá também esse mercado, que não só entristece quem o conhece da maneira como conhecemos em Belle, como também acaba com a vida e todos os sonhos de grande parte das garotas envolvidas. Não Belle, que persistiu e mostrou uma coragem que poucas mulheres teriam, e que não mediu seus atos ao buscar o reencontro com a felicidade.

“Meio adormecida, segura nos braços dele, Belle sentiu que finalmente conseguia entender todas as piadas que as meninas faziam. Aquele era o estado que todos queriam alcançar, mas talvez poucos alcançassem, pois ela tinha certeza que poucos homens conheciam o corpo de uma mulher como Serge conhecia” (pág. 232).

O livro em si cita inúmeros lugares de Londres, Paris e até mesmo New Orleans, mostrando a diferença da cultura americana e europeia, mas acima de tudo revelando o sofrimento de mulheres em lugares tão distintos. Apenas nesse fato percebemos que a autora precisou pesquisar muito antes de escrever a história, e apesar de não ter vivido na época retratada, Pearse consegue colocar o leitor dentro desses cenários muitas vezes cruéis.
Belle não é um livro bonito e possui uma narrativa forte, com cenas bem descritas, como o cenário e até mesmo as vestimentas da época, e por vezes angustiantes. Tudo o que foi enfrentado pela protagonista é narrado com riqueza de detalhes, incluindo cenas de sexo, mas o que realmente impressiona é a maneira como essa personagem age para tentar recuperar o mínimo de felicidade em sua vida. Mas, quando menos esperamos, algo acontece para mudar o rumo das coisas, surpreendendo o leitor e criando inúmeras reviravoltas convincentes.
Mesmo o livro tratando da história de Belle, ainda encontramos inúmeros outros personagens, tão bem criados quanto a própria protagonista. Existem outras meninas que passam o mesmo que ela; homens que se relacionam, casualmente ou não, com a nossa heroína; e até mesmo aqueles que buscam incansavelmente por informações sobre o desaparecimento de Belle. Sendo assim, temos a certeza de que os personagens secundários são tão importantes como os principais.
Como foi dito, temos aqui uma história forte, mas também o retrato de uma verdadeira heroína, que pode servir de exemplo para que mulheres não desistam de todos os seus sonhos. Porém, Belle ainda revela a dificuldade encontrada por alguém quando seu mundo desmorona e essa pessoa busca reencontrar sua própria identidade, não se importando em agir contra seus próprios ideais e de forma por vezes fria perante a sociedade. Só espero que a continuação, The Promise, seja tão perfeita quanto esse primeiro livro.

“Etienne inclinou-se para frente, tomou-a nos braços e abraçou-a. - Ele era mau, não você, Belle. Não ouse começar a pensar que você mereceu o que ele fez. A morte não é solução, é apenas a maneira de os covardes escaparem da dor. O mais corajoso a fazer é deixar o passado para trás, que é o lugar dele” (pág. 483).

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