Antes de o meu amigo Ricardo Biazotto me pedir pra escrever este texto, eu já tinha uma certa vontade de fazê-lo visto que vivo no meio político da leitura e educação. E quando ele propôs o tema, não foi difícil me interessar.
Fui do fim da geração que se ia mal na escola, “ficava pra janeiro”. E por ter vivido neste paradigma, vivo digladiando com defensores do novo ou politicamente corretos: não é correto reprovar um aluno porque isto pode causar abandono escolar, ensinar dever ser feito por amor e não por salário, qualquer leitura é válida uma vez que o importante é a prática da leitura... etc. E é justamente neste último quesito que vivo em eterna guerra com muita gente.
Os novos tempos exigem que a escola se aproxime de sua comunidade e não que o aluno busque o conhecimento erudito e culto que a instituição deve oferecer. O importante é a alfabetização e não mais o reconhecimento do culto Alexandre Herculano em contraste com o popular Guimarães Rosa nem a métrica poética. O que importa é a que movimento o poeta pertencia. E por aí vai.
Perguntei para algumas professoras da rede municipal o que elas achavam sobre leituras nas escolas além de ver com os meus próprios olhos a realidade escolar atual e no que se refere aos educadores, muitos procuraram ser politicamente corretos em dizer que a leitura não ter que ser imposta e tem que trazer prazer ao leitor, que o processo de leitura tem que ser lúdico, que o importante é a prática do ato de ler em si enquanto o que eu vi é que muitas crianças hoje aproveitam a interatividade da tecnologia e não perdem mais tempo lendo um livro: basta jogar o jogo no Playstation 3, Xbox 360 ou Nintendo Wii que o pai deu no Natal, mas achou desperdício dar R$ 30 em um exemplar de um livro de contos de fadas ou A Droga da Obediência, por exemplo.
Uma vez que a opinião das professoras é característica do que prega o novo paradigma de ensino, eu procurei artigos na internet e uns dizem que a leitura de textos que o meio político considera como difíceis deve ser obrigatória sim e se o aluno não gostar, que vá procurar outro lugar para estudar e outros dizem que ela deve ser obrigatória desde que o professor demonstre entusiasmo (algo difícil em uma profissão de baixos salários, acúmulos de cargos, jornadas árduas, riscos e outras variantes) para que o aluno não sinta aquele mal estar similar ao que sente quando o professor pede uma redação em tema livre ou outra redação contando como foram as férias dele.
1 – como muitos pais são hipócritas e preferem assistir a um jogo de futebol ou a novela do que acompanhar o desenvolvimento intelectual do filho crendo que a educação escolar e a educação de convívio social são a mesma coisa, logo as crianças não têm mais pais que leiam um livro na frente deles para eles verem que a leitura é algo realizado por pessoas. Daí, tanto a leitura de livros feita pelas “tias” do primário quanto os livros que os professores indicam deve ser feita. E quando digo “deve”, me refiro a uma obrigação;
2 – já reparam como coisas lúdicas estão na moda? É porque o pessoal já não quer mais usar a imaginação para pensar como é o cenário onde a história se passa, a descrição física do personagem ou outras coisas. Então o livro tem que vir carregado de ilustrações, de interatividade e outras coisas. Quer algo do tamanho de um livro com interatividade? Arrume um tablet;
3 – quando nos condicionamos a um hábito e vemos outras pessoas praticando, é claro que ele se torna prazeroso e às vezes até automático. Se as pessoas praticassem mais o hábito da leitura, teríamos tantos leitores como temos alcoólatras;
4 – sobre a “leitura banal” em vez do consagrado: eu concordo em fazer as duas. A garota quer ler Crepúsculo? Que ela leia Drácula depois. O garoto quer ler Harry Potter? Que leia Oliver Twist para ver o que é um personagem ser realmente mal tratado também. Gosta de filmes de terror? Que leia O Gato Preto (Poe) e A Cartomante (Machado);
5 – que o professor tem que ter entusiasmo? Sim. Infelizmente somos obrigados a ser duas pessoas: a pessoa que somos e o profissional. Portanto não posso indicar um livro com voz e expressão corporal tão enfadonhos se o meu atraso foi considerado injustificado apesar do trânsito, por exemplo;
Concluindo, sou um defensor do velho paradigma não porque ele era bom, mas porque pensávamos mais assim como a geração do meu pai também tinha aulas de Ética, Sociologia, Filosofia, etc. E hoje, vejo que esta formação me fez ser a pessoa que estudou ao ponto de escrever não só este texto que você lê assim como outros que você pode ver me procurando. Agora vamos ver até onde vão estes garotos das escolas de hoje se o governo não baixar as notas de corte dos vestibulares ou ampliar o sistema de cotas.
Obrigado a todos(as).
Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora. Contato: davi_paiv@hotmail.com










