Ao iniciar uma vida profissional, poucas vezes imaginamos ser possível ouvir um chamado especial para seguir por um novo caminho, em uma área completamente diferente da qual escolhemos para seguir. Mas esse chamado existe e também pode ser motivo de felicidade quando acontece, principalmente quando, de alguma forma, as duas áreas se casam perfeitamente e rendem trabalhos apreciados por terceiros. Dependendo da situação, somos obrigados a dividir o tempo, e as pessoas em nossa volta precisam compreender que o tempo livre é usado para trabalhos que podem gerar bons frutos no futuro. Nesse mês conhecemos um escritor potiguar que divide seu tempo entre a literatura e a medicina, mas que diz se sentir feliz por ter aceitado o chamado e escrito seus livros, incluindo Presságio: O Assassinato da Freira Nua (Resenha) e O Maníaco do Circo e o Menino que Tinha Medo de Palhaços (Resenha), por isso agora estamos De Olho em Leonardo Barros:
Lançamento de Presságio: O Assassinato da Freira Nua - Foto Facebook
Over Shock - Leonardo Barros, obrigado pela parceria e por conceder essa entrevista ao blog Over Shock. Antes de iniciar nosso papo, conte aos leitores quem é o escritor e médico Leonardo de Souza Barros.
Leonardo Barros - Um médico que ouviu o chamado da literatura, mergulhou de cabeça, sem medo, e hoje se sente muito feliz em ter feito isso.
Agradeço a você, Ricardo, por mais uma oportunidade de divulgação no site Over Shock.

Over Shock - Antes de publicar seu mais recente trabalho, Presságio – O Assassinato da Freira Nua, você lançou um romance erótico, um policial e duas comédias. Quais foram as principais diferenças encontradas na hora de elaborar histórias de gêneros tão distintos?
Leonardo - Creio que todo escritor se sente mais à vontade em trabalhar com o gênero que mais aprecia. Talvez a diversidade de gêneros dos meus livros seja produto da variedade dos gêneros de ficção que consumo. Mas existem diferenças imensas entre os métodos necessários à produção de gêneros distintos.
Quando trabalho com suspense, gosto de antever as viradas e os desfechos desde o começo da história. O resumo de uma obra de suspense é, para mim, sua peça fundamental. Passei mais de um mês escrevendo e reescrevendo o resumo do Presságio.
Já as comédias têm um ritmo diferente. Fiz resumos mais simples e não me sentia apto a escrever todos os dias. Os maiores empecilhos à produção de uma boa comédia são, em meu ver, o ritmo (que seria a intercalação entre textos informativos e textos cômicos) e o humor do autor. Pois é... É impossível escrever algo engraçado quando se está de mau-humor.

Over Shock - E como foi o processo de publicação e divulgação de cada um dos seus livros?
Leonardo - Os livros anteriores ao Presságio foram lançados independentemente e distribuídos apenas em Natal, que é a cidade em que moro. Por isso não me dediquei à mídia de internet. Achava que não adiantava.
O Presságio, no entanto, foi lançado pela Novo Século Editora, cuja distribuição tem se mostrado muito eficiente. Foi nesse momento que percebi que tinha de me dedicar à divulgação e comecei a firmar parcerias com blogues literários e posso atestar que funciona.
Fiz inúmeras parcerias, o que acabou demandando uma dedicação de tempo razoável, mas a maioria delas está valendo muito a pena.

Over Shock - Além de escritor, você é médico formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Como você divide o tempo para se dedicar a medicina e a literatura?
Leonardo - É difícil, mas não é impossível. Costumo dizer que é uma mera questão de prioridade. A produção literária e a divulgação do livro na internet consomem muito do meu tempo livre, realmente. Mas conto com a compreensão dos amigos e da família.

Over Shock - Até que ponto sua experiência com a medicina o ajudou na escrita de seu novo trabalho literário? Você concorda quando digo que essa experiência contribuiu para que o livro se destacasse entre os demais livros policiais?
Leonardo - Acho que tudo o que você lê e estuda, ao longo da vida, e todas as experiências de um autor, acabam se manifestando em determinados momentos da produção literária. Não há como fugir disso. Por ser médico, acho difícil ignorar detalhes biológicos dos personagens envolvidos nas cenas que imagino. Em todos os meus livros há personagens médicos. Seja ele um dos protagonistas ou um mero personagem secundário.
Ser médico não me ajuda a escrever, mas certamente me obriga a ver o mundo de uma forma um pouco diferente da maioria das pessoas. E confesso, a literatura me ajuda a ser também um médico melhor, já que a comunicação é um dos alicerces da relação entre médico e paciente.

“Sentia novamente um toque úmido lhe acalorando os lábios. A língua atrás da orelha se multiplicando, lambendo seus ombros. Sentia cada batida do coração nos pulsos nervosos dos vasos de suas coxas. Os cabelos macios entre seus dedos. A cabeça entre suas pernas” – Presságio: O Assassinato da Freira Nua (pág. 33).

Over Shock - Presságio: O Assassinato da Freira Nua reúne diversos elementos, que poderiam ou não agradar os leitores. Em algum momento você teve medo de que essa união prejudicasse o seu trabalho?
Leonardo - Não. Acredito que o escritor tem sempre de levar em consideração diversos elementos que tornam o livro mais vendável, mas há de se manter uma identidade.
Acho que você se refere à sensualidade de algumas cenas, não é? Confesso: adoro isso! E foi assim que comecei a escrever.
Hoje me preocupo um pouco mais com elementos que possam limitar a classificação etária do livro, mas não me sinto totalmente preso a esse detalhe, entende? Creio que o Presságio tem o “ponto” certo entre a história que eu queria contar e o livro que a maioria dos leitores gostaria de ler.
Não há fórmula. Só intenção norteada pelo bom-senso.

Over Shock - Existem situações ou personagens inspirados em fatos reais, ou tudo o que encontramos em Presságio é fruto da sua imaginação?
Leonardo - O Presságio é um livro no qual todos os personagens são produtos da minha imaginação e foram criados previamente no que eu chamo de “laboratório de personagens”.
Mas não excluo a possibilidade de usar “avatares”. Eles são muito úteis, principalmente em comédias, ou em livros com uma quantidade muito grande de personagens.

Over Shock - O final dessa obra sugere aos leitores que é possível que exista uma espécie de continuação. Podemos esperar por novos livros protagonizados por Alice?
Leonardo - Sim!
Tenho um resumo de uma continuação do livro, mas não estou trabalhando nele, no momento, pois retomei um projeto no qual pensava desde 2008: uma série de suspense fantástico.

Over Shock - O que você faria se estivesse na mesma situação de Alice e precisasse correr contra o tempo para provar não ser louco e para evitar que um assassino fizesse uma nova vítima?
Leonardo - (risos) Olha, essa é difícil de responder. Talvez a história do Leonardo Vidente não fosse assim tão interessante.
O que faz da Alice uma grande protagonista é sua abnegação em busca da verdade. Ela não mede consequências. Arrisca a vida e se submete a situações moralmente condenáveis para desvendar os crimes.
Acho que o Presságio, sem a Alice, não faria sentido... Histórias acontecem com pessoas. E a Alice é a pessoa certa para esse suspense.

Over Shock - Quais autores e livros serviram de inspiração para a escrita do seu mais novo livro?
Leonardo - Como comentei anteriormente, tudo o que se lê e se vive influencia, de uma forma ou de outra, a produção de um autor.
Gosto de textos imagéticos, de narrativa dramática. Neste aspecto, a obra do Nelson Rodrigues me influenciou desde o início. Hoje procuro obras que tiveram adaptações para o cinema e para a tevê, e procuro criar paralelos entre os diversos formatos de contar a história. Este estudo analítico é algo que julgo importante para a minha obra.
Leio um pouco de tudo, mas recentemente me apaixonei pela obra de George Martin e tenho me dedicado a conhecê-la melhor. Tem sido interessante e divertido. Como a literatura tem que ser!

“O cadáver fora arremessado sobre o solo úmido. Natália nua, lisa e molhada era alvíssima. As ondas levavam, a cada movimento de águas, o corpo suspenso. Correu ao porta-luvas da Pajero e buscou o vidro de perfume que arremessou nas ondas do mar. Ajoelhou-se, penetrou com os dedos longos a areia fria. Pediu a bênção do pai Ogum, a proteção da mão Oxum. Pediu, então, à mãe das águas, à sua Fada Alva, que levasse o corpo para longe, que o afastasse das horas do mal. Do fogo da boca de Xangô” – O Maníaco do Circo e o Menino que Tinha Medo de Palhaços (pág. 110).

Over Shock - Como autor de um romance erótico, o que você pensa sobre a atual febre desse gênero que cresceu após o lançamento de livros como Cinquenta Tons de Cinza?
Leonardo - Escrevi um romance erótico em 2008 e um thriller policial erótico (O Maníaco do Circo), em 2009, muito antes dos Cinquenta Tons. Mas tenho tentado me afastar do rótulo de “escritor erótico” porque acho que é uma limitação desnecessária.
O erótico é um gênero como outro qualquer. E há de se saber que toda moda passa. Se o escritor escreve a história que tem vontade e para a qual tem talento, o sucesso chega, mais cedo ou mais tarde.
O importante, em meu ver, é a qualidade do que se escreve. A forma com a qual o autor trata a história e seus personagens.

Over Shock - Jogo Rápido:
Amor de Yoni: instigante e intuitivo;
O Maníaco do Circo – e o menino que tinha medo de palhaços: fantástico;
Saúde, Beleza, Prosperidade e Riqueza: um bom livro que foi amaldiçoado por um péssimo título;
Solteiro em Trinta Dias – Receitas de sucesso de um ex-otário: hilário;
Presságio – O Assassinato da Freira Nua: graças à editora, um marco delimitador na minha carreira de escritor.
Erótico, comédia ou policial? Suspense. Seja policial ou não. Sensual em lugar do erótico, como uma sugestão, em vez do ato explícito.
Novos Talentos da Literatura Brasileira: um bom caminho para quem quer chegar a uma grande editora;
Presságios: um paradoxo do ponto de vista factual. Antes, não se prova; depois, deixa de ser um presságio, já que o fato realmente aconteceu. Fascinante, não é?!
Crimes Sexuais: hediondo e inaceitável.
Blogs Literários: Ah! Não dá para ser rápido nessa! Os blogueiros são os estandartes do bom livro e os arautos do livro ruim. Espero ter a chance de conhecer todos os meus parceiros literários pessoalmente, algum dia. O Ricardo Biazotto (que conseguiu me emocionar com sua resenha), a Alessandra Tapias, o Moisés Suhet, o Ph Santos e o Carlos Tourinho, o Igor Thiago, a Tainara Rodrigues, a Carolina Durães, a Nathália Novikovas, a Mariana Mortani, a Vanessa Meiser, o Mairton Costa, o Igor Thiago... Nossa, é muita gente! Não dá pra citar todo o mundo. Só tenho a agradecer a essa galera que levanta a bandeira do Presságio, não porque são parceiros, mas porque gostam do livro e porque se tornaram amigos de verdade, apesar da distância.

Over Shock - Novamente obrigado e parabéns por escrever o melhor livro policial nacional de 2012 – os fãs do gênero agradecem. Que este ano de 2013 seja de muito sucesso em sua carreira literária e que você nos brinde com novos livros como Presságio: O Assassinato da Freira Nua. Aproveite esse espaço para deixar suas últimas palavras aos leitores do blog Over Shock.
Leonardo - Eu que agradeço. A divulgação do Over Shock ajudou muito a fazer do Presságio um livro conhecido pelos leitores do país inteiro.
Aos leitores do Over Shock que ainda não leram o Presságio, um convite: conheçam a história da testemunha paranormal do assassinato da Freira Nua e depois comentem o que acharam, na fan page ou no perfil do livro no Skoob.
Abraço a todos!

Contato com o autor

“Voltou a observar o diretor do manicômio, que falava ininterruptamente. Ela percebera algo diferente em seu olhar: uma breve, quase imperceptível contração de suas pálpebras, que se repetia, vez por outra. E ela viu, no canto do lábio dele, um breve sorriso. Ele não a estava testando ou examinando. Apenas tinha prazer em ridicularizá-la, em diminuí-la. Talvez, irritar as pacientes fosse sua maior diversão. Ou a única forma lícita de um sádico se divertir ali” – Presságio: O Assassinato da Freira Nua (pág. 142).