Névoa, Cristiana Gimenes (organizadora), 1ª edição, São Paulo-SP: Andross, 2013, 224 páginas.
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O sobrenatural, o suspense e o terror sempre se confundem e geram sensações distintas a cada nova experiência, e por isso é normal nos pegarmos tentando evitar ou afastar determinadas situações que se tornam temidas por nossa fraca e teimosa consciência. Com tantas coisas capazes de assustar e criar um clima de tensão, autores iniciantes aproveitam a atmosfera embaçada de uma névoa para se aventurar em contos capazes de tirar o sono do leitor.
Organizado pela atriz e contadora de histórias Cristiana Gimenes, a antologia Névoa reúne o que de melhor foi produzido por escritores entre 14 e 55 anos, apesar de não existir limite de idade, levando ao leitor contos em gêneros amados por muitos e evitados por outros tantos. Contos que não precisam possuir um tom sobrenatural, e justamente por isso que inúmeros autores se aproveitaram da realidade para escrever uma história para contrariar até os mais céticos.

“Há vários pacientes em mesas de metal, enquanto médicos trabalham neles com lâminas afiadas e outros objetos. Meu horror é tão intenso que penso que vou literalmente morrer de medo. De repente, os médicos param o que fazem e olham para mim. Tento fixar-me nas paredes, mas é óbvio que não é possível, e logo eles estão em cima de mim” (pág. 93 – Uma Noite no Sanatório Waverly Hills).

Naturalmente que esse tipo de antologia dá a oportunidade de autores divulgarem seus trabalhos, assim como a chance desses mesmos autores criarem histórias originais, o que acontece em muitos casos, ou histórias mais semelhantes a outras já conhecidas da literatura e da dramaturgia em geral.
Existem contos cansativos e outros empolgantes; contos intensos e outros mais discretos, e mesmo que isso aconteça, não existe um conto que seja totalmente descartável, pelo contrário, alguns mereciam até um desenvolvimento maior, em um possível romance, por exemplo.
Com uma predominação do sobrenatural, Névoa possui uma grande mistura do que envolve os três gêneros escolhidos para fazer parte da antologia. Com muita ação e sangue jorrando por entre as páginas do livro, encontramos histórias sobre seitas, criaturas sobrenaturais, lendas e os tão conhecidos mortos-vivos, que nos últimos tempos estão dominando o mundo ficcional.

“Encurralado, estalei os dedos e desfiz a minha magia. Meu casaco sumiu, dando lugar às minhas asas negras e o resto da minha roupa social se transformou numa túnica larga e escura. Eu esperava que ele se assustasse ao ver o meu equipamento virar a minha foice enquanto o meu rosto adquiria o aspecto macabro que sempre usam para me descrever. Mas, em vez disso, ele suspirou e ficou me encarando com aquela velha expressão amigável” (pág. 188 – Visita Especial, de Davi Paiva).

Por já imaginar que isso tudo poderia ser usado em grande quantidade, o conto que abre a antologia, Preta Velha de André Annansi, foi uma das grandes surpresas em Névoa. E isso aconteceu por inúmeros motivos, além é claro da escrita do autor paulista. O conto de André narra a história de um senhor de terras que tratava com violência os seus escravos, mas que ao entrar em guerra com uma doença, deixou o orgulho e suas ideologias de lado ao pedir ajuda para Preta Velha, uma antiga escrava da fazenda. O que esse homem não imaginava era as consequências da cura nada convencional utilizada pela mulher, que lhe mostraria que o que “aqui se faz, aqui se paga”.
O conto Uma Noite no Sanatório Waverly Hills, da gaúcha Mandy Porto, é um grande exemplo de história com várias semelhanças, mas que ainda assim pode ser considerado um grande destaque por suas descrições e por sua narrativa envolvida pela névoa e por um clima intenso. Um conto que ao findar-se mostra que o desejo por aventura e pelo desconhecido pode encurralar e assustar até mesmo as garotas mais corajosas.
Também coautor de Corações Entrelaçados (Resenha), antologia de contos românticos, Davi Paiva novamente surpreendeu com sua história, apesar de não ter repetido o tom bem-humorado de Rádio Pirata. Após ler Rádio Pirata, imaginamos que o conto Visita Especial seguirá a mesma estrutura, e aí que o leitor se engana e se surpreende com uma história totalmente reflexiva, diálogos fortes e dois personagens que se completaram. Um conto que poderia facilmente estar nos três livros da série Moedas para o Barqueiro, também organizados por Cristiana Gimenes.
Mas existe uma autora que novamente conquistou a admiração, não apenas pela amizade que surgiu em trabalhos anteriores. Gabriella Lara Silva é uma jovem promessa da literatura, que participa de sua segunda antologia e novamente demonstra sua facilidade com as palavras, e em A Seita Macabra narra o ritual de aceitação de uma pessoa em uma seita que venera um deus cruel, que tem como ideais a dor e o sofrimento. E se parar para pensar, dor e sofrimento é o que os personagens mais encontram em Névoa, o que pode ser passado também para os leitores. Mas será que todos estão preparados para serem aceitos em uma seita macabra e encarar o despertar do demônio escondido nas páginas desse livro?

“Esse era o objetivo desde o início do ritual, promover sua aceitação. Fazê-la aceitar aquele demônio, que dilacerava suas entranhas para se instalar no aconchego de seu corpo. Havia renegado a força até o momento, significava então que ela teria uma segunda chance?” (pág. 164 – A Seita Macabra, de Gabriella Lara Silva).