Alma?, Gail Carriger, tradução de Flávia Carneiro Anderson, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Valentina, 2013, 308 páginas.
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Por mais que tenha uma legião de fãs, chega um momento em que os livros de fantasia podem se tornar cansativos, principalmente quando há o uso de determinados elementos. Justamente por isso havia certo receio em relação ao livro Alma?, apesar de ser o primeiro livro de O Protetorado da Sombrinha, série de steampunk mais cultuada do mundo.

O subgênero da ficção científica costuma abranger outros gêneros e talvez essa união tenha feito grande diferença no livro de Gail Carriger, que é protagonizado por Alexia Tarabotti, uma solteirona de apenas 26 anos e que é filha de um italiano já morto. Alexia é uma mulher diferenciada na sociedade vitoriana, e isso se intensifica quando ela é atacada por um vampiro. Isso não seria um problema caso fosse permitido pelas regras dos seres sobrenaturais. Isso não seria um problema caso ela não fosse uma preternatural e tivesse alma.

Devido ao que acaba de acontecer, a Rainha Vitória envia o lobisomem Lorde Maccon para investigar o ataque e a aparição inesperada do vampiro agressor, ao mesmo tempo em que outros vampiros estão desaparecendo. E por ser uma preternatural e ter o dom de anular o poder dos sobrenaturais, Alexia pode ser de extrema importância para a investigação... Ou seria o verdadeiro motivo de tal investigação?

“Tomou a forma de lobo – mas somente da cabeça para cima – e rosnou para ela. Foi extremamente bizarro: tanto o ato em si (uma estranha fusão de carne derretida e ossos estalados, muito desagradável de ver e escutar) quanto a visão de um cavalheiro vestido de forma impecável, mas com uma cabeça perfeita de lobo sobre a gravata plastrom de seda cinza”. (págs. 96 e 97).
Segundo Gail Carriger, havia várias situações que ela jamais conseguiu entender nos livros de urban fantasy e ao buscar as respostas para tais dúvidas, ela criou a teoria de que tudo o que aconteceu é devido aos seres sobrenaturais, que dominaram a sociedade e ajudaram uma ilha a conquistar metade do mundo e formar o Império Britânico. A princípio essa ideia pode ser totalmente maluca, mas aos poucos percebemos que não. A leitura de Alma? mostra que isso é sim possível, já que Carriger criou uma história tão bem estruturada que a ficção se confunde com a realidade.

A realidade é tão natural que nos sentimos presentes na Era Vitoriana (1837-1901), um dos mais significativos momentos da história britânica. Seja com a culinária, a moda ou simplesmente a arquitetura vitoriana, tudo ganha um tom realista conforme a cultura da então sociedade é revelada ao leitor, que em muitos momentos pode se surpreender, afinal, não é todo dia que podemos acompanhar a Rainha Vitória lidando naturalmente e pessoalmente com seres sobrenaturais.

Outro grande diferencial é essa naturalidade com que tudo acontece, já que vampiros e lobisomens são como qualquer humano, convivendo com eles no mesmo meio, sem que isso seja motivo para segredos, como vemos em tantos outros livros do gênero. A mistura desses detalhes, que são inovadores, com a escrita viciante de Carriger faz com que Alma? se torne um livro contagiante, e a leitura empolgante. Uma leitura que se inicia e que chega ao final antes que o leitor tenha tempo de parar para o chá das cinco.

Apesar de não existir necessidade de uma pausa para o chá, temos um romance um tanto incomum e até mesmo improvável, seja pelo início ou pelas situações criadas pela autora. Para quem se incomoda com certos tipos de romances, isso pode ser agradável, porém novamente Carriger surpreende quando o romance passa a existir e se torna mais do que provável, necessário. E por incrível que pareça, torcemos para que tudo dê certo, ainda que se o romance se formasse com outros personagens também não seria totalmente desagradável.

Mas Alma? envolve muito mais e certamente haveria conteúdo para escrever sobre a sociedade, as discussões, os personagens ou a escrita da autora, que em apenas 308 páginas construiu um enredo surpreendente, que envolve disputas de interesses políticos e científicos, onde tudo tem o destaque merecido. Personagens secundários, e até certo ponto insignificantes, são importantes para a trama em seu dado momento; os vampiros e lobisomens possuem seus próprios ambientes, com importância para o governo; quando necessário, os mistérios são revelados e histórias são contadas, tudo no momento exato. E isso faz com que livro se torne especial e então fica difícil falar sobre ele, enquanto é muito fácil entender porque essa é a série steampunk mais cultuada do mundo.

Alexia Tarabotti é uma personagem simpática, apesar de que nem todos os personagens concordarem com essa opinião. Ao seu lado, ela possui duas armas: sua inseparável sombrinha e o dom de uma preternatural. Contra ela também são dois grandes problemas: a dúvida do verdadeiro inimigo e o preconceito da sociedade e de sua própria família. Ela não tem a responsabilidade de levar a história em suas costas. Carriger fez isso com maestria, se preocupando com os mínimos detalhes. Mas será que uma mulher de 26 anos pode ser considerada uma solteirona ou ser criticada por ser filha de um italiano? Quem se importa quando existe uma história tão fascinante? A preocupação maior é com o próximo livro, Changeless.

“Quem quer que ouvisse aqueles uivos tremeria de medo, independentemente de ser vampiro, fantasma, humano ou animal. Algo que, no final das contas, não importava muito, pois qualquer lobisomem liberado das correntes matava de forma indiscriminada. Na noite de lua cheia, a lua sangrenta, não se tratava de escolha nem de necessidade. Apenas acontecia”. (pág. 208).

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