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No século XIX, época em que a arte sofria grandes mudanças, tanto na Europa como no Brasil, a literatura deixou de ter as características conhecidas do Romantismo e ganhou traços mais realistas com o surgimento do Realismo e do Naturalismo, que no Brasil ficaram eternizadas na obra de Aluísio Azevedo, em especial no livro O Cortiço, publicado originalmente em 1890.
Retratando a realidade do Rio de Janeiro no final do século XIX, O Cortiço não possui um único protagonista, já que todos os personagens têm sua devida importância e todos, sem exceção, estão ligados ao cortiço, que Taís Gasparetti, professora e responsável pela coordenação editorial do livro, diz ser mais forte do que todos os personagens. O cortiço em questão, propriedade do português João Romão, “assiste” as histórias de inúmeros personagens distintos, que enfrentam as dificuldades impostas por uma sociedade e sentidas na pele pela população da cidade, que ainda não tinha nada de maravilhosa.
“Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em alugá-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação” (pág. 28).
Considerado um dos principais livros da literatura brasileira, O Cortiço mostra as características mais conhecidas do estilo de Aluísio Azevedo, que além de caracterizar seus personagens como ninguém, os criava para mostrar o homem como um animal racional, ainda que nem sempre isso de fato aconteça com seus personagens. Sendo assim, encontramos um retrato fiel da personalidade humana, que acaba sendo um dos pontos fortes da obra.
Com descrições em um tom lírico, o autor narra situações comuns na sociedade de Botafogo, bairro onde está localizado o cortiço de João Romão, como, por exemplo, o casamento forçado, as traições, os crimes e acordos, e até mesmo relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, o que faz de O Cortiço ser a primeira obra brasileira a retratar um relacionamento lésbico. Além disso, encontramos também a diferenças entre as classes sociais e da cultura de povos de diferentes origens, lembrando sempre que no século XIX colônias de vários países da Europa começaram a se instalar de forma definitiva em nossa terra.
E justamente por se tratar de uma obra do Realismo, que como citado tinha a intenção de narrar o que de fato acontecia na sociedade, podemos nos deparar com elementos sociais que, mesmo após mais de um século, continuam presentes na sociedade brasileira. O que não significa que a obra é apenas maravilhas, ainda que muitos digam isso.
A maneira como o autor dividiu a estrutura de sua narrativa impossibilita que a leitura seja feita com naturalidade, e isso não acontece apenas pelo fato de possuir uma linguagem diferente do que a que estamos acostumados. A linguagem, por vezes de difícil compreensão, mas ainda assim agradável, não se compara aos altos e baixos presentes na obra, que em um capítulo pode estar narrando um fato interessante e contagiante, enquanto que no capítulo seguinte a leitura se torna arrastada – se culpa do personagem ou da situação apenas o leitor pode definir.
Se a estrutura narrativa não agrada, isso não acontece com os personagens, que em sua maioria são distintos e de histórias singulares, possibilitando uma série de questionamentos sobre a personalidade humana e sua evolução com o passar do tempo. Podemos citar, então, a mulata Rita Baiana, com sua sensualidade encantadora; João Romão e seu desejo por mais; Jerônimo e suas dúvidas em relação ao desejo do corpo ou seu compromisso; enfim, todas com sua personalidade e as próprias evoluções.
Tais evoluções também acontecem com o cortiço onde tudo se passa e que deixou de ter algumas dezenas para ter centenas de moradores, possibilitando até o surgimento de outros cortiços semelhante – e de objetivos/características diferentes. Isso mostra apenas que a cidade aos poucos crescia, se tornava importante e se dirigia rumo ao status de maravilhosa (e todos sabemos que com seus próprios problemas), assim como O Cortiço, que é uma obra importante, porém não é totalmente maravilhosa, por também possuir seus problemas.
“E o caso daquela guitarra estrangeira era um lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto-mar, quando a tempestade agita as negras asas homicidas, e as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos pressagos, tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abóbada de chumbo” (pág. 60).
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