Resultado ou instrumento de alienação?

Imaginem uma casa onde os pais não têm tempo para cuidar do filho mais novo e o deixam aos cuidados do filho mais velho, que não possui a experiência e a maturidade dos pais para educar uma criança. Agora imaginem que depois de alguns anos, os pais finalmente arrumam tempo e passam mais tempo com a criança que já é quase adolescente. O que eles notarão: que ainda que tenham instruído o filho mais velho, o mais novo não tem a determinação do pai ou a benevolência da mãe. É um jovem com um caráter irregular e personalidade torta, porque seu único exemplo do que é ser uma pessoa era um garoto de poucos anos de vida.

Esta história foi criada por mim para entenderem um pouco do que é o resultado do funk ostentação.

“Encontrei no funk uma possibilidade de fazer sucesso
que não enxergava no rap, que tinha letras mais politizadas”
- Bio G3.
Este estilo de música tem raízes bem profundas. Nasceu do bom e velho funk de James Brown que bem mais para frente veio para o Brasil começando pelo Rio de Janeiro, onde se somou ao rap (também americano) e aos estilos aqui já existentes (do axé e seus glúteos rebolantes ao pagode do “laiá laiá laia” e letras tão profundas que parecem um Lusíadas... virado ao contrário) e dando origem ao pancadão ou proibidão, que é o funk que faz apologia ao crime, sexo, drogas e violência. O funk ostentação começou na baixada santista entre 2009 e 2010 e veio para a capital pegando um pouquinho do ritmo do reggae e do hip hop, só que as temáticas das letras são outras: falar de artigos de luxo como carros e roupas é a meta dos MCs (cantores do estilo deste funk que pegaram o termo do hip hop, que quer dizer Mestre de Cerimônia).

Para o estilo ganhar a força que possui hoje, ele conta com toda uma equipe por trás dele:

  • Homens de negócios: empresários, donos de casas de shows e as marcas que estes garotos (muitos cantores de funk não tem mais de 26 anos, segundo pesquisa) que reconhecem que este é um estilo que vende. Cabe ao comprador procurá-lo ou ceder a “tentação” da oferta;
  • Governo: o Festival de Funk de São Paulo contou com a ajuda do ex subprefeito da Cidade Tiradentes e atual empresário de cantores de funk, Renato Barreiros, para acontecer. A temática do evento era com músicas sobre a paz, reuniu 80 artistas e em torno de 30 mil pessoas em suas três edições (2008, 2009 e 2010). Bastou aos empresários ver quem era o melhor show men e que melhor vendia a sua imagem e dali, começar uma carreira. Só foi preciso mudar a pegada das letras para algo que vendesse;
  • Mídia: as redes de TV precisam vender. E para isso, veem o que o público gosta e coloca em sua grade de programação. É benéfico? Agrega valores sociais? Não. Vende? Sim.
  • População: sim. A parcela do povo que consome o funk ostentação é responsável pelo seu sucesso. Seja você o jovem que escuta essa música, o pai que não liga para o gosto musical do seu filho considerando apenas uma fase ou membro da sociedade que considera que isso é cultura.

Neste último item, eu queria fazer uma ressalva sobre a cultura do funk ostentação em uma ótica menos parcial. Vamos lá:

O que é cultura? Cultura é o que o povo cultua, aprecia e cultiva. É claro que você pode ter a sua cultura individual e ninguém apreciar como sua coleção de tampinhas de garrafa ou ter uma cultura em massa. O que não quer dizer que ambas não sejam culturas.

O funk ostentação é a cultura de um povo que não tem oportunidades. Abandonados pelo Estado, eles veem os “bacanas” com todos os produtos e através de suas músicas, expressam e fomentam o desejo de adquiri-los. O mundo capitalista faz de tudo por um negócio então não se importa se você é um pobre coitado que ganha um salário mínimo. Se você quer um óculos da Oakley de mais de R$ 1 mil, parcele-o. Assim segundo a ótica do sistema comercial e da cultura do funk, você tem a ascensão social justamente por ter como comprar o mesmo produto que a pessoa rica.

“Não é imaginação, é realidade. Já virou passado a miséria
e a necessidade” - MC Boy do Charme
Outro fator que dá sucesso ao funk ostentação é a sua disponibilidade e hit do momento. As músicas do MCs estão para os adolescentes assim como Beatles estavam para os fãs nos anos 60 ou Legião Urbana nos anos 90 com o seu respectivo público. Os pais e pessoas mais velhas criticavam por achar que as músicas de gerações anteriores eram melhores, contudo nem mesmo a nossa geração anti-funk para e pensa: o que queremos que eles façam? Que gostem dos Beatles e de Legião? Eles não viveram a nossa época e não entendem os valores delas.

Creio que muitas pessoas estão pensando em como me xingar depois desta visão menos parcial. O que posso dizer é que como morador de periferia, apesar de entender a ótica do funkeiro sobre ascensão social, também discordo dela. Eu tenho a opinião própria que ascensão social é quando você pode escolher entre abdicar dos serviços públicos e usufruir dos particulares como tirar o seu filho de uma escola pública e colocá-lo em um colégio particular, por exemplo. Claro que muitos cantores de funk dado o valor que recebem por mês podem fazer isso. Só que o seu público não pode. O MC pode matricular o seu filho onde quiser. E o rapaz que mora na periferia e comprou dois pares de tênis Mizuno Wave Prophecy (preço: R$ 999,00) para ficar como no clipe dos Lelekes? Será que ele pode ou desejo de ostentação fomentado pelas músicas fez dele uma serpente que foi comendo a própria cauda e hoje ele se afunda em dívidas?

Como se não bastasse isso, o funk ostentação ganha novos adeptos em novos estilos. Como os cantores sertanejos Munhoz & Mariano, cuja música “Camaro Amarelo” consta com mais de 40 milhões de visualizações no Youtube e foram os mais assistidos de 2012.

Para muitos, a oposição ao sucesso destes cantores soa como inveja. Também é algo que eu entendo e ainda discordo. O sucesso destes artistas é tão momentâneo quanto vazio e o legado deles é contraditório. Daniel Pedreira Sena Pellegrine, vulgo MC Daleste morto em 2013 durante um show, teve a sua humildade fortemente divulgada por fãs depois de sua morte. Algo muito contraditório para um adepto de um estilo musical que fala tanto de produtos que nem todo garoto cujo pai ganha um pouco mais que o salário mínimo pode comprar.

“O funk ostentação mostra que um mundo que era para poucos
se tornou um mundo para muitos” - Renato Meirelles,
sócio-diretor do Instituto Data Popular.
Volto ao meu exemplo inicial para dizer que enquanto os pais (Estado) deixam o irmão mais velho (sistema capitalista e alienador) cuidar do mais novo (público carente), é só o que teremos. Não podemos esperar uma mudança na linha de raciocínio do público nem uma conscientização do que é melhor para eles enquanto eles não tiverem recursos melhores para terem como progredir.

Obrigado a todos.

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera, Sopa de Letras, Amores (Im)Possíveis, Mentes Inquietas e Livre Para Voar todas da Andross Editora.
Contato: davi_paiv@hotmail.com

3 Comentários

  1. Gabriela Costa e Silva1 de dezembro de 2013 às 18:17

    Quanto filme que parece ser bom hein?!
    Muitos nacionais...
    Mas o que mais me interessei foi "Eu respiro", acho que vai ser filme de fazer chorar rios de lágrimas! hahaha

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  2. Gabriela Costa e Silva1 de dezembro de 2013 às 18:39

    Concordo com tudo o que você disse! Os "MCs" estão ficando mais ricos, e os fãs, se afundando em dívidas pra poder usar as coisas caras que acham que vão lhe dar algum valor. Mas, com certeza é um sucesso momentâneo, o problema é que surge um MC novo a cada minuto, e esse ciclo nunca para...

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  3. Você levantou questões bem interessantes em relação ao tema (mais uma vez).
    Quando paramos pra pensar mais um pouco, vemos que o buraco é mais fundo do que se imagina. Muito se reclama de emissoras de TV e rádio, pela disseminação desses tipos de músicas, mas, querendo ou não, elas são empresas, e com tais, tem que pensar no que dá dinheiro.
    Outro ponto importante é essa questão das famílias, a cada dia, passarem menos tempo juntos. Ou seja, o que esperar de uma juventude que é "criada e educada" pela TV?!?! Enfim, é um tema que dá muito pano pra manga.

    @_Dom_Dom

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