Olá, pessoal. Tudo bem?
Hoje vamos falar de uma técnica de escrita bem delicada e que gera controvérsia entre autores, mas que dá ótimos resultados quando bem empregada. Eu já havia dado umas pinceladas sobre o assunto em meu artigo sobre narração (link aqui), mas acho que agora podemos aprofundá-la mais.
Vamos falar de Ponto de Vista, ou PdV. Nota: há artigos em que ele é abreviado como PoV, que vem do inglês, “Point of View”. Mas eu vou chamá-lo de PdV.
Lembram dos jogos em terceira pessoa? Vocês enxergam aquilo que está à frente do personagem. Se virá-lo para a direita, enxergam o que está ao seu lado e deixa de ver o que estava a frente dele, certo?
![]() |
| Quem disse que o PdV é técnica exclusiva dos livros? |
Dois bons exemplos de PdV bem empregados foram nas sagas “Harry Potter” e “Percy Jackson”. Na série britânica, conhecemos o mundo bruxo pelos olhos de um leigo (Harry) e aprendemos com ele. Na americana, idem. Já imaginaram se os dois livros fossem, respectivamente, narrados pelo Rony (que já é bruxo) ou pela Annabeth (que já conhece os deuses gregos)?
Agora uma coisa especial dessa “câmera”: ela entra na cabeça do personagem e vai descrever o que ele pensa, sente ou acredita. Isso faz com que ele possa interpretar coisas erradas e seu erro faz com que ele seja igual a nós. Já falaram com uma pessoa e acharam que estava tudo bem quando na verdade não estava? Pois bem. Esse é o PdV dela e você viu tudo pelo seu.
![]() |
| Se entrássemos um segundo na cabeça dele, saberíamos que ele era um cara legal... |
Os leitores mais atentos devem estar se perguntando: PdV é escrever em primeira pessoa?
1. PdV na primeira pessoa.
O autor tem que se colocar na pele da personagem e descrever tudo que ela faz, como pensa e como vê.
Vejam o exemplo:
“Ofereci o dinheiro para o guarda, mas ele empurrou a minha mão para o lado.— Não precisa me pagar. Só fiz o meu trabalho — esclareceu”
O verbo “percebi” indica que a ação é executada por quem fala. E não podemos entrar na cabeça do guarda para saber o que ele pensa ou fica desarmônico.
Agora vejam a mesma situação com alterações:
“Ofereci o dinheiro para o guarda, mas ele achou que era pouco e não queria aceitar trocados de uma desempregada como eu. Empurrou a minha mão para o lado.— Não precisa me pagar. Só fiz o meu trabalho — esclareceu”
Viram? Agora sim entramos na cabeça do guarda quando dizemos “mas ele achou que era pouco”.
![]() |
| Katniss: se não está presente e acordada, você não sabe o que aconteceu. |
2. PdV na terceira pessoa (foco em uma só), mas não onisciente.
Esse é o “câmera nas costas”. O que o personagem entende, ele descreve. Exemplo:
“O explorador viu aquela criatura na árvore e deu um passo para trás, procurando sua faca na cintura sem tirar os olhos dela. Não era grande e tinha uma expressão tranquila, similar a de uma pessoa. Mas aquele pelo sujo e garras enormes poderiam indicar que ela era um ser perigoso.“Essa floresta amazônica só tem predadores!” pensou.”
Pobre explorador... Mal sabe que está com medo de um bicho-preguiça!
Brincadeiras a parte, reparem que o explorador viu a criatura e teve reação (recuar e procurar sua arma), além do narrador descrevê-la como ele a enxerga: uma criatura de pelo sujo e garras afiadas. O narrador não pode descrever que ela é uma criatura inofensiva... porque o explorador não sabe.
3. PdV em terceira pessoa (sem entrar na cabeça de ninguém)
O narrador é uma mosca voando pela sala e descreve o que vê e ouve, mas sem entrar na cabeça dos personagens. Exemplo:
“— Eu ofereço vinte reais pelo seu livro — disse o comprador.— Essa obra é muito rara! Sabe quantas pessoas vendem esse livro por aqui? — rebateu o dono da loja.— Pelo estado em que a deixou, creio que poucos. Vinte reais está de bom tamanho — retrucou o rapaz, tamborilando os dedos na mesa.”
Quem garante que o comprador está impaciente ou fingindo impaciência? Ninguém, pois o narrador não pode entrar em sua cabeça.
4. PdV em terceira pessoa com informações ilimitadas.
O narrador é um deus, que pode saber o que todos pensam e como vão reagir. Muitas vezes, isso estraga surpresas. Exemplo:
“— Marcinha, não sei se soube, mas a Daniela terminou comigo... — disse Daniel, procurando escolher as palavras para fazer o convite.“Se ele quiser me convidar para sair, eu não vou aceitar”, pensou Marcinha.— Sei disso sim. A escola inteira sabe. O que eu tenho a ver com isso? — rebateu a garota.— Nada. É que... já que tenho os ingressos para o show, achei que quisesse ir comigo...— Pode me esquecer — respondeu a garota, sem deixar Robson completar seu convite.”
Como podem ver, o leitor não tem surpresa. Ele já sabia que Marcinha não ia aceitar o convite.
Há autores que gostam de escrever assim: tudo em pratos limpos e sem surpreender o leitor. Em minha humilde opinião, isso tira do livro uma das coisas mais importantes que ele quer ao ler uma obra: a emoção.
Considerações finais
É possível criar uma narrativa em que eu narre em primeira pessoa, depois mude para terceira e reconto tudo do PdV do irmão da protagonista?
Eu não posso fugir um segundo sequer do PdV do meu personagem que está narrando?
E se eu tenho uma narrativa ocorrendo em várias partes do mundo, posso colocar um cidadão em cada lugar narrando os fatos?
![]() |
| Crônicas de Fogo e Gelo: acha mesmo que só há UM narrador ali? |
Na segunda, eu digo que sim. Mas recomendo que faça poucas vezes. Se você está narrando do ponto de vista de alguém, ou quer que o leitor crie empatia com personagem-narrador (Harry Potter) ou com quem estiver ao seu redor (Dr. Watson, que narra o que Sherlock Holmes faz). Se ficar narrando do PdV dos outros, o leitor não vai passar muito tempo com o personagem que você quer que ele goste e o tiro sai pela culatra: vão torcer para que você o mate.
E na terceira pergunta, digo sim novamente. Um alemão viu a Segunda Guerra de uma forma... um russo, de outra... um judeu, de outra... um japonês, de outra... um americano, de outra... e um brasileiro, de outra. E se eles se encontrarem, como vai fazer o leitor ver porque cada um vai reagir de uma forma com o encontro sem a empatia que será necessária?
Para mais informações, leia os livros “Book-in-a-Box” do Nano Fregonese (capa rosa) e o da Camila Prietto (capa amarela), da DVS Editora.
É isso, pessoal. Espero que tenham gostado do artigo.
Abraços e continuem escrevendo!
Sobre o Autor
















Olá Davi!
ResponderExcluirSeus artigos sempre sendo esclarecedores. =D
Realmente tem muito autores que se perdem nessa coisa de PDV. Eu já li tanta coisa em que a pessoa colocava narração em primeira e terceira juntas que a leitura acabava ficando cansativa. Mas, bem ou mal, eu conseguia me entender na bagunça, porque eu sei ler as coisas mais improváveis. haha (Ainda lembro de corrigir a ortografia e ter a compreensão de textos de alunos durante o meu estágio, enquanto a professora só conseguia fazer um de cada vez.)
Eu já narrei dos "dois tipos", em primeira e terceira. E a minha primeira experiência com um narrador-personagem foi com o Jimmy (sim, daquele livro do garoto virgem) e foi uma coisa muito divertida.
E agora eu alterno de modo, dependendo da história. Agora tem uma em que eu uso dois PDV ao mesmo tempo. A mulher mostra o dela pelo diário, o homem complementa com seus comentários. No caso seria o marido lendo o diário da esposa. =D
E acredite, teve gente que conseguiu se perder, mesmo com frases do tipo: "Abri o diário e comecei a ler; continuei a leitura".
Só uma outra coisa: pelo o que me lembro o HP não chega a narrar a história não. Mas deixa eu me esconder aqui, porque eu nem terminei o primeiro livro. haha
Beijos!
Estou muito contente por ler os artigos.
ResponderExcluirMuitíssimos interessantes.
Recomendadíssimos.
Parabéns.