Tigana: A Lâmina na Alma, Guy Gavriel Kay, tradução de Carlos Daniel S. Vieira, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Saída de Emergência Brasil, 2013, 368 páginas.
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Tigana é uma antiga nação oprimida por conquistadores vingativos. Os últimos sobreviventes dessa província da Península da Palma se unem, depois de muito tempo, para tentar libertar esse povo de uma maldição do Rei Brandin. Com essa maldição, o nome dessa terra não pode ser lembrado ou pronunciado por outros povos, e isso está causando a perca da identidade e da história dos tiganeses.

Liderado pelo Príncipe Alessan, esse grupo inicia uma perigosa jornada com o objetivo de destronar os reis que conquistaram as províncias e que desde então estão no poder. O objetivo principal é recuperar o nome banido, e para isso todos entram em uma aventura cercada de paixões, mitos, vinhos e muita música para acompanhar a luta por um antigo sonho.

“E Dianora pensara, enquanto sua visão sentia a dor daquela ausência: o que é uma pessoa que segue seus dias como sempre fez, que fala, anda e trabalha, que come, faz amor, dorme e às vezes até consegue rir, mas cujo coração foi cortado e arrancado de seu corpo? Nenhuma cicatriz fora deixada à vista. Nenhuma ferida, pela qual pudessem se lembrar do golpe da lâmina” (pág. 193).
Uma característica bem particular de Guy Gavriel Kay o transformou no grande herdeiro de J. R. R. Tolken: a combinação de lugares e acontecimentos reais para a construção de um enredo alternativo e muito envolvente. Essa característica está intensamente presente em Tigana: A Lâmina na Alma, livro mais importante do escritor canadense, que foi inspirado na chamada Primavera de Praga e se passa em um lugar muito semelhante à Itália Medieval.

Os elementos que inspiraram essa fantasia épica seriam suficientes para tornar a obra diferenciada, porém tudo é colocado perfeitamente bem e Tigana se torna uma fantasia incrivelmente cativante. Com três partes bem distintas, o livro consegue em poucas páginas apresentar províncias e pessoas diferentes (sempre com suas próprias culturas) e ainda explorar passado e presente para no fim dar sentido a tudo que poderia ser visto fora de contexto.

Mas a grande sacada de Kay está na elaboração de uma história sem personagens principais ou secundários, já que todos são de extrema importância – até mesmo aqueles que aparecem rapidamente – para que o grupo liderado pelo Príncipe Alessan tente conquistar seu grande objetivo. Se essa foi a intenção apenas o autor é capaz de dizer, no entanto dá para classificar a província de Tigana como a protagonista, já que além de carregar a história nas costas, ainda deixa o leitor instigado a conhecê-la.

Além disso, o cenário também não deixa a desejar, com a presença de todas as características que remetem a tão bela e encantadora península itálica. Mas isso, na verdade, só seria possível com uma escrita que possibilitasse a união de descrições detalhadas com uma leitura ágil – mesmo com capítulos tão extensos. Em um estilo único, Kay cria sua própria política e religião, e ainda leva o leitor a lugares e situações inesquecíveis com sua narrativa lírica que explora magia e vingança.

Apesar de ser natural o leitor se sentir perdido sem consultar o mapa da Península da Palma, que felizmente está incluído na belíssima edição da Saída de Emergência Brasil, em nenhum momento esse se sente incomodado por uma leitura que poderia facilmente se tornar cansativa. Como isso não acontece, é possível dizer que Tolkien está muito bem representado por seu herdeiro, Guy Gavriel Kay.

Muita coisa ainda precisa acontecer no próximo livro, Tigana: A Voz da Vingança, mas já é possível se surpreender com um livro que trata a liberdade e a identidade de um povo em busca de sua própria história. Enquanto isso, existe a certeza de que cada nova leitura resultará em uma nova experiência e interpretação. E já que estamos falando de um lugar semelhante à Itália, nada como um bom vinho para acompanhar a leitura do melhor livro fantástico desde O Nome do Vento e O Temor do Sábio – ou podemos dizer o contrário, já que Tigana foi publicado em 1991.

“Os mortos. Quem eram seus mortos? Marra. Sua mãe, que nunca conhecera. Tigana? Poderia dizer que um país, uma província, estava morto? Poderia Tigana estar perdida e ser velada como uma alma viva?” (pág. 313).

14 Comentários

  1. Oi, Ri! Bom, eu gostei muito da resenha. O título em questão aparenta ser muito interessante, mas não sei se gostaria da leitura tanto quanto você. Toda essa história de povo em busca de liberdade é curiosa, mas acho que me sentiria um pouco deslocada com uma narrativa tão repleta de detalhes como pude notar lendo as suas impressões.

    Um beijo!
    Doce Sabor dos Livros - Aguardo sua visita!

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    1. Jeni, acho que até hoje não vi você lendo fantasias épicas, mas posso garantir que essa é muito interessante e as chances de você gostar são grandes. Pelo menos espero isso se você tiver a oportunidade de ler.

      Beijos e obrigado por seu comentário!

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  2. Recentemente tive contato com meu primeiro livro dessa editora, e achei a edição de uma beleza e de um cuidado incrível!
    O livro chegou por engano, não era o que eu havia pedido, mas não devolvi quando li.
    E lendo esta resenha, conhecendo outro livro, outra série da editora. Me estimula mais a ler o livro "Mago", e já fico numa curiosidade absurda para ler este livro. A História é muito interessante. Muito incrível de fato!
    Quero muito!!!

    Ótima resenha!

    Jônatas Amaral
    alma-critica.blogspot.com.br

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  3. Estou muito ansioso para ler este livro, e acho que irei adquirir em breve, porque faz um tempinho que não leio uma fantasia épica nesse estilo tão arrebatador. Eu fiquei muito surpreso com a premissa da história e todo esse mistério por trás de Tigana, e espero poder experimentar essa leitura - e fiquei ainda mais empolgado quando você citou Tolkien, afinal, o considerado pai da fantasia na literatura é um nome suficiente para deixar claro a importância da obra. Fico feliz que a SdEB esteja trazendo tantos títulos bons agora :D

    Abraços!

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    1. Joshua, esse é mais um livro que eu tenho certeza que você irá gostar, principalmente por conhecer as suas preferências literárias. Não sei se já leu a revista Bang!, mas a matéria publicada na primeira edição vai te dar uma noção muito maior de como esse livro pode ser perfeito. Só espero que tenha a mesma opinião :D

      Abraços,

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  4. Ainda não tive grandes experiências com livros desse estilo, acho que por ser um pouco mais "pesado", mais denso que os outros, eu tenho uma dificuldade de continuar a leitura. Ou então porque eu ainda não conheci um livro que me prenda. E pela resenha, esse deve ser ótimo!! Mas confesso que o fato de ser uma série me deixa um pouquinho desanimada...
    Ah, e já que você se referiu a O Nome do Vento como "melhor", acho que vou começar a lê-lo agora mesmo! Comprei ele e O Temor do Sábio mas ainda não tive tempo, então...
    Bjss (:

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    1. Juliana, preciso concordar que muitos livros do gênero são mais lentos do que o normal, mas não dá para negar também que as histórias são sempre fascinantes, como esse caso. Mas preciso dizer também que não se trata de uma série. Na verdade Tigana é um livro único, mas devido o tamanho a Saída de Emergência Brasil preferiu dividir em dois livros.

      Beijos,

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    2. Isso é verdade! Quando a gente pega o ritmo da leitura que a gente percebe como o livro é fascinante. Que bom que não é uma série rsrs Mas nem achei esse livro tão grosso, precisava mesmo dividir em dois? o.O

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    3. Realmente não sei explicar, Juliana. De fato não é tão grosso, mas em Portugal a Saída de Emergência costuma dividir os livros (Guerra dos Tronos chegou a ser dividido, e nem é o maior livro da série do Martin), então talvez ela esteja fazendo o mesmo no Brasil. Única explicação, eu acho :s

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  5. Olá Ricardo,

    Acabei de ler esse livro a pouco tempo e logo postarei resenha no blog, gostei demais e não vejo a hora de ler a continuação a editora esta de parabéns com os seus lançamentos....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  6. Sua resenha é interessante Ricardo, mas não sei se gostaria de ler o livro, mas posso até adquirir ele para que meu irmão leia, bom conseguir que ele começasse a ler e olha já esta no 6º livro do ano. Feliz por isso. rs

    Beijos
    http://fernandabizerra.blogspot.com.br/

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  7. Todo lançamento da Saída de Emergência vem chamando minha atenção e Tigana não é diferente, tudo que envolva fantasia, guerra, vingança e afins juntos e narrados de forma brilhante já faz valer a pena ainda mais quando é um livro tão bom quanto você citou na resenha, todas as resenhas que li eram só elogios, espero que quando ler também goste tanto quanto espero.

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  8. Opa mais uma série? Amo sou, trilogias e séries. Não gosto de quando uma história chega ao final, é sempre bom saber que terá mais um livro para ser lançado. Gostei bastante da sinopse dele.

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  9. A Saída de Emergência Brasil está chegando com tudo. Está resgatando ótimos títulos que foram lançados lá atrás. Gosto de pegada medieval, e da Itália também. Essa mistura deve ter dado certo. Outra coisa legal é essa criação de uma sociedade, política e religião próprias. Enfim, se já queria ler, agora quero mais ainda.

    @_Dom_Dom

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