A Casa do Penhasco, Agatha Christie, tradução de Lais Myriam Pereira Lira, 3ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Nova Fronteira, 1979, 211 páginas
Publicado originalmente em 1932 com o título Peril at End House, A Casa do Penhasco é a oitava aventura do detetive belga Hercule Poirot, considerado um dos maiores – se não o maior – detetive da literatura policial. Como costuma acontecer, a autora Agatha Christie surpreende da primeira a última página, em uma história fantástica.
A história se passa em Saint Loo, segundo o narrador-personagem, uma das cidades mais atraentes do litoral da Inglaterra. Ali, Hercule Poirot e seu fiel companheiro, Capitão Arthur Hastings, estão hospedados em um hotel, onde conhecem Nick Buckley, uma mulher jovem e dona da Casa do Penhasco. Nick conta sobre uma série de acidentes que tem sofrido nos últimos dias, mas Poirot não acredita que seja simples acidentes e sim tentativas de assassinato que falharam. Mesmo desejando se aposentar, Poirot entra em ação e ao lado de Hastings tenta evitar um novo atentado que pode levar a morte da jovem Nick Buckley.
A cada nova experiência com uma obra de Agatha Christie, somos surpreendidos de tal forma que a nossa admiração por ela apenas cresce. A narrativa, como costuma acontecer, é de uma simplicidade incomum e ainda assim nos prendemos na história, querendo apenas o desfecho – ou ao menos dicas do que pode realmente acontecer. São os diálogos, fortes e muito bem construídos, o ponto fonte de mais uma aventura de Hercule Poirot, um verdadeiro gênio.
O livro é narrado mais uma vez pelo Capitão Hastings e para ao menos tentar – o que é difícil se tratando de Christie – se aproximar da teoria do detetive belga, precisamos estar atentos e não se prender apenas ao que é narrado. Como diz o próprio Poirot, seu amigo “nunca percebe as coisas” e se focando no que ele escreve o leitor também nunca vai perceber as coisas. Isso diferencia um caso de Hercule Poirot com os demais personagens da autora, como Sr. Quin – O Misterioso Sr. Quin (Resenha) –, outro personagem emblemático.
Tão surpreendente como O Assassinato de Roger Ackroyd (Resenha), em A Casa do Penhasco encontramos também citações de outros casos de Hercule Poirot, como O Mistério do Trem Azul (Resenha) e também personagens comuns nas histórias do personagem, como o inspetor Japp, detetive da Scotland Yard. Conhecemos outros personagens bem elaborados – como a própria Nick ou o Comandante George Challenger -, de importância para o enredo e que possuem histórias paralelas, sem que isso se perca da história principal.
Como um bom livro policial, são necessárias reviravoltas e isso acontece a cada capítulo, aumentando assim o mistério e também confundindo o leitor, que mais do que nunca precisa usar a massa cinzenta. Mas essas reviravoltas não se comparam ao final surpreendente, quando Hercule Poirot, com seu jeito metódico de investigar e solucionar um caso, mostra a verdade aos interessados e só fica satisfeito ao encontrar a resposta para todas as suas perguntas.
A Casa do Penhasco pode ser um livro amado ou odiado, dependendo apenas da relação do leitor com as personagens. Isso porque ao mesmo tempo em que o final é surpreendente, ele pode desagradar a muitos pelo fim tomado por certas personagens - como o meu caso, já que nunca desconfiei de nada. Mesmo que isso aconteça, ninguém poderá dizer que a autora não fez um excelente trabalho ao construir essa trama, que se fosse de qualquer outro autor, seria de longe sua grande obra-prima.
“- Não lhe pedi para descrever o chapéu. Está claro que você não percebeu. É incrível, meu pobre Hastings, como você quase nunca percebe as coisas. Espanto-me sempre com isso! Olhe, meu caro imbecil, olhe! Não é preciso usar a massa cinzenta. Bastam os olhos. Olhe! Olhe com os olhos de ver.” (pág. 25).










