- Encontro com o Salvador –
Enquanto seu sangue passava por exames para constatar que estava apto a ser usado em William, o detetive italiano foi com Thaís até a lanchonete do hospital, em um ponto afastado no primeiro andar do prédio. O braço de Franccesco Fracalossi estava dolorido e seu corpo sentia os efeitos de uma leve queda na pressão. Nada que o impedisse de permanecer ao lado da amiga, aguardando o momento exato para uma visita a dona Márcia, mãe do cantor baleado.
Franccesco tomava cappuccino e saboreava um pão-francês; já Thaís, preferiu ficar com uma xícara de café e algumas bolachas. Comiam e conversavam quando Franccesco disse o que faria após terminar de se alimentar pela primeira vez no dia:
- Depois vamos visitar a mãe dele e dar nosso apoio. Ela ainda está abalada pela morte do marido, deve estar sendo difícil encarar essa barra sozinha.
- Não vai visitar ele? – ela perguntou – Estou curiosa para conhecer esse rapaz que todos comentam.
- Oh, claro. Vou apenas esperar que ele acorde. As lembranças apareceriam facilmente e... Bem, você sabe, sou muito emotivo. Não...
- Não precisa se explicar, - apertou a mão do amigo, que repousava sobre a mesa. Thaís sabia o momento certo de apoiá-lo ou irritá-lo – eu te conheço melhor do que ninguém.
- Ana Paula não iria gostar de ouvir isso – ele sorriu, limpando os lábios com um guardanapo.
- Se ela fosse ligar para nossa relação de amizade tenho certeza que você seria mais um para o time dos divorciados, ou... Dos mortos – gargalhou de uma maneira gostosa de ouvir, não demonstrando ser a mulher de fibra que precisava impor autoridade quando estava a serviço.
- Eu não me casaria com uma assassina.
- As mulheres ciumentas são capazes de tudo, meu amigo. Até mesmo a mais santinha se tornaria uma arma de guerra se estivesse com ciúmes de um grande amor.
- Por falar nisso, já passou da hora de você encontrar um namorado, não acha? – não podia perder a chance de praticar o esporte favorito de Thaís, contra ela mesma - Desse jeito vai ficar para a tit...
- Passou da hora de você parar de encher. – mudou de assunto em seguida. - Acho que a mãe do garoto está nos esperando. Vamos? – levou a xícara de café pela última vez a boca e se levantou, deixando Franccesco com um sorriso estampado no rosto.
Ela quer me irritar e sempre é ela quem acaba irritada. – ele estava certo - Mulheres tentam e nunca conseguem irritar um homem tanto quanto ficam irritadas.
Com calma Franccesco terminou seu café e só então caminhou até Thaís Fontaine que, impaciente, o esperava próxima ao elevador. Em silêncio foram até o quarto andar e entraram no leito onde Márcia Herz estava desde que, horas antes, teve um pequeno desmaio. Foram recepcionados por ela, que estava deitada em uma cama. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e sua expressão era de quem queria sair daquela situação. Ao vê-los, a senhora que era alguns anos mais velha agradeceu e abriu os braços esperando por um abraço caloroso e que seria de extrema importância para seu estado de espírito.
- Franccesco Fracalossi, não sei como te agradecer. Muito obrigada, de coração. – se referia a investigação e também a doação, que a deixou extremamente feliz - Que nosso bom Deus te proteja e guarde hoje e sempre.
- Amém. – disse ele, se aproximando de dona Márcia e abraçando-a fortemente, passando toda a energia que estava guardada desde o momento em que descobriu sobre o que acontecera com o filho da simpática senhora.
- E essa mulher linda? Sua esposa? – com os olhos direcionados a Thaís a senhora perguntou ainda entre os braços do detetive italiano.
Franccesco se afastou e abanou a cabeça.
- Jamais me casaria com esse homem complicado. – Thaís tomou a liberdade de responder rapidamente, deixando Márcia confusa. Em seguida se aproximou da cama e abraçou a senhora, que tinha o mesmo receio de quem abraça um desconhecido – Sou Thaís Fontaine, delegada responsável pelo... Estou tomando conta de tudo o que aconteceu essa noite.
- Obrigada, Thaís. – uma lágrima escorreu por seu rosto – Nem sei como agradecer o que todos estão fazendo.  Só quem passa por uma situação como essa pode entender como é dolorido.
- A senhora precisa controlar as emoções. – Thaís sentou-se na beirada da cama.
- Ela é meio louquinha, - foi a vez de Franccesco se sentar em uma poltrona próxima a janela – mas dessa vez tem razão. A senhora tem que estar bem para receber William.
- Foi bom você tocar no assunto. – a mãe estava aflita - Você já descobriu quem fez ele isso com ele?
- Já está tudo certo. Os culpados devem estar na delegacia e vão pagar pelo que fizeram. – o detetive olhava para Márcia e percebeu que ela queria mais informações, por isso prosseguiu – Ah, sim, infelizmente o baterista da banda e duas garotas também estavam envolvidas. Creio que ele ficará péssimo ao descobrir que um amigo...
- Que garotas? – o interrompeu.
- Gabriela, uma antiga desavença do seu filho, e uma amiga de Priscila, que de certa forma também é uma vítima.
- Oh, não! – estava espantada e não deixou de demonstrar a revolta pelo mal entendido – Priscila também está envolvida? Como posso acreditar nisso? Eu confiei tanto nessa garota... Eu a considerava como uma filha.
- Não, não! Eu disse uma amiga de Priscila. Essa garota nunca gostou de William e pensava que Priscila iria sofrer se continuasse com esse relacionamento, por isso tentou terminar com tudo. Na verdade, tudo indica que ela não sabia o que realmente iria acontecer. A polícia vai investigar. Por mim ela está falando a verdade.
- Onde esse mundo vai parar?
- Se existe um Deus, só ele sabe – Thaís não costumava falar sobre Deus. Aquela era uma das poucas exceções que teria ao longo de toda sua vida.
- Vou precisar do apoio de vocês para revelar isso ao meu pequeno William. Ele vai ficar decepcionado por isso e conhecendo-o como só eu conheço sei que vai discordar e dizer que o trabalho de vocês foi em vão e que tudo não passa de uma mentira. – se ajeitou na cama antes de continuar – Meu filho passou por muitas coisas ruins, mas é um menino de bom coração e que infelizmente acredita nas pessoas.
- As pessoas estão cada vez mais falsas e acreditar nelas mostra a ingenuidade de alguém de bom coração. – queria dar a impressão de estar filosofando, o que não adiantaria muito. Em instantes voltou a ser o Franccesco Fracalossi que todos conheciam – Não se preocupe Márcia. Irei ajudar em tudo o que for possível.
A conversa continuou por mais alguns minutos e quando o papo chegou ao fim, Franccesco e Thaís Fontaine deixaram o hospital e foram para a casa da delegada, onde Franccesco ligou para a esposa dando notícias. Ali ele permaneceu até o final da tarde. Pôde descansar, porém a ligação de Franccesco e William ainda não tinha chegado ao fim. O caso ainda teria um capítulo especial.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)