Textos simples e fluentes em romances, contos e crônicas podem ser fundamentais na classificação de uma boa obra, principalmente quando essa possui originalidade e se destaca em um meio tão competitivo como o mercado literário. Por esses e outros motivos que Moacyr Jaime Scliar se tornou um destaque da literatura brasileira, sobretudo ao público infanto-juvenil.
Filho de uma imigrante professora primária, que o alfabetizou, Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre no dia 23 de março de 1937, em Bom Fim, bairro que até hoje concentra uma grande colônia judaica na capital gaúcha. Iniciou seus estudos aos seis anos e em 1948 ingressou em um colégio católico, onde permaneceu até se formar. Em 1955 passou a cursar faculdade de medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1962. Nesse mesmo ano as palavras entram em sua vida para nunca mais sair, com a publicação de Histórias de um Médico em Formação, livro de contos sobre suas experiências como estudante de medicina.
Antes de iniciar definitivamente seu trabalho na literatura, Scliar passou a trabalhar com a medicina ao fazer residência em uma clínica médica, ao mesmo tempo em que se especializou em saúde pública. No final da década de 60, publicou aquele que considerava seu primeiro livro: O Carnaval dos Animais (Skoob). Na mesma época, o autor viaja para Israel, onde frequenta um curso de pós-graduação em medicina.
Ao voltar para o Brasil, Moacyr Scliar se torna professor, mas não deixa de escrever e em 1972 publica pela editora Expressão e Cultura o livro A Guerra no Bom Fim (Skoob), seu primeiro romance e que mistura realismo e fantasia. Protagonizado por Joel, aparentemente A Guerra no Bom Fim é uma autobiografia do autor, já que o personagem relembra sua vida no bairro onde Scliar nasceu e ainda mostra a influência da colônia judaica em Porto Alegre, marca que seria constante na obra de Scliar a partir de então.
Desde sua primeira publicação, o autor recebeu uma série de prêmios, incluindo o Guimarães Rosa, em 1977, e o José Lins do Rego, entregue pela Academia Brasileira de Letras em 1998. Porém, o mais importante prêmio recebido por Scliar foi o Jabuti. A primeira obra de Moacyr Scliar a receber esse prêmio foi O Olho Enigmático (Skoob), na categoria Contos, Crônicas e Novelas de 1988. Lançado originalmente em 1986, o livro possui os mais importantes contos escritos pelo escritor gaúcho até então, e passam a transformá-lo em um dos mais notáveis nomes da nossa literatura.
O romance A Mulher que Escreveu a Bíblia (Skoob), lançado pela Companhia das Letras em 1999, também foi premiado com o Jabuti em 2000, ao lado de outros dois escritores. Com uma linguagem cômica e irônica, o autor mergulha no universo feminino ao contar a história de uma mulher que descobre ter sido uma das setecentas esposas do rei Salomão, e a responsável por escrever a história da humanidade, principalmente do povo judeu.
Mais tarde, em 2009, a obra Manual da Paixão Solitária (Skoob) recebeu o prêmio em duas categorias: Romance e Livro de Ficção do Ano. O livro de 216 páginas também tem relação com a Bíblia, onde os personagens vivem divertidas aventuras inspiradas em um dos capítulos do livro de Gênesis.
Antes disso, em 2003, o autor é eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 31, que tem como patrono o jornalista e poeta Pedro Luis Pereira de Sousa (1839-1884).
Na mesma época, Moacyr Scliar foi envolvido em uma polêmica com o escritor canadense Yann Martel, autor de As Aventuras de Pi, que foi acusado de plagiar o livro Max e os Felinos (Skoob), publicado pelo autor gaúcho em 1981. Em entrevista realizada pela L&PM em março de 2009, Scliar disse: “O que me irritava não era o fato de ele ter usado a ideia [...] O que me irritou foi exatamente a maneira como esse escritor fez isso. Uma maneira que eu atribuo basicamente à imaturidade emocional dele, porque ele basicamente dava a ideia de que o que o ele quis fazer foi aproveitar uma boa ideia, estragada por um mau escritor brasileiro”*.
Após essa polêmica, o autor lançou uma série de livros, sendo o último o livro intitulado Eu Vos Abraço, Milhões (Skoob), que se passa na década de 20 e é narrado por um avô que conta sua própria história ao neto.
Ao longo de sua carreira, o escritor publicou mais de 70 livros, nos mais variados gêneros e estilos literários. Seus textos foram adaptados para a televisão, rádio, teatro e também o cinema. Colaborou ainda com importantes jornais do país, como o “Folha de São Paulo”, onde escrevia às segundas-feiras na coluna Cotidiano. Scliar faleceu por falência múltipla dos órgãos, devido às consequências de um AVC, no dia 27 de fevereiro de 2011, aos 73 anos, porém é um verdadeiro Imortal da Literatura – prova disso é o fato de que o autor que conquistou tantos prêmios, deu nome a uma premiação criada pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, e que em 2012 premiou o poeta Ferreira Gullar.

* Vale lembrar que Yann Martel pediu desculpas pelas palavras sobre Moacyr Scliar, e que o autor brasileiro aceitou as desculpas e resolveu não processá-lo.

“Que pessoas de idade aprendam a usar o computador, que façam esporte, que cuidem da aparência, que aprendam a andar de moto, tudo bem. Mas que renunciem à sua própria vida, à sua identidade, essa não” – Moacyr Scliar em A Velhice Maquiada.


Moacyr Scliar - 23/03/1937 - 27/02/2011