"Isso [10% do PIB para educação]
coloca em risco as contas públicas.
Isso vai quebrar o Estado brasileiro" -
Guido Mantega, ministro brasileiro
Sempre dizemos que a grama do vizinho é mais verde. E no caso da educação escolar isto não é exceção.

Segundo pesquisa da empresa Pearson de materiais e serviços educacionais divulgada em 2012 com 40 países, o Brasil ocupa a 39º colocação, a frente somente da Indonésia. Finlândia lidera. Coréia do Sul vem em seguida sendo assim a maior da Ásia. A Nova Zelândia é a maior da Oceania no 8º lugar enquanto o Canadá é a maior da América com a 10ª posição. Da América do Sul, a Argentina é a melhor qualificada com a 35º colocação.

Nosso país investe 5,7% do nosso PIB (Produto Interno Bruto. A soma dos valores monetários de todos os bens produzidos aqui) em educação. Considerando a necessidade deste setor, há houve muitas negociações para um aumento desta contribuição. Até o ministro Guido Mantega já afirmou que aumentar para 10% quebra o Estado (detalhe: Mantega tem doutorado e especialização em Sociologia pela USP. Mais um destes cidadãos que só tem diploma e nem um pouco de ética).

Qual será a fórmula do sucesso dos outros e do fracasso do nosso? Simples:

Disposição e controle de gastos: se você quer uma coisa, tem que estar disposto a pagar. Não é mesmo? Nem sempre. A Finlândia gasta 6% do PIB em educação. 0,3% fazem tanta diferença? Depende do controle de gastos. O país europeu dispensa provas nacionais com o Enem (que custou R$ 90,4 milhões em 2012) e aposta mais na valorização do professor, segundo a ministra da educação, Jaana Palojärvi. E também segundo a mesma, é uma questão de organização.
"O sistema de educação gratuito não sai tão caro assim,
é uma questão de organização" - Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação da Finlândia

Valorização do professor: enquanto aqui no Brasil o professor é mal pago, desvalorizado pela sociedade e a mídia além de sofrer violência, na Coréia do Sul, por exemplo, ele é respeitado. Pudera! Lá um professor é selecionado pelas suas notas desde o Ensino Médio. Além de eles terem o histórico avaliado para entrarem na graduação depois de um concurso com uma grande quantidade de concorrentes (uma vez que o salário de lá é bom), eles são avaliados por conhecimentos em línguas, Matemática e comunicação para ensino. Quatro anos depois de graduação em período integral com estágios em escolas dentro das universidades e um mestrado — formação obrigatória para quem quer lecionar — e pronto! Ele está preparado para atuar nas escolas.

Aqui no Brasil um professor é obrigado a trabalhar em até duas escolas. Isto quando não arruma outro serviço além da área da educação. É uma carga desgastante para combinar com uma pós-graduação ou até um mestrado. Somando isto com a difamação da mídia e do povo quando eles fazem greve (já repararam que ninguém liga se os professores fizerem greve enquanto se o pessoal do transporte faz é um apocalipse sobre a Terra?) ou alegam baixo salário (o custo de vida é realmente alto para todos, todavia parece que só o professor não pode se queixar), não é a toa que alguns não passam da graduação ou abandonam o cargo. Seja por problemas de saúde ou por decepção com o cargo.

Cultura de estudos: o Japão que aparece em 4º colocado na lista da Pearson tem ensino em horário integral (assim como os outros três primeiros colocados) bem como aulas de segunda a sábado. Às vezes os alunos aparecem nas escolas aos domingos para alguma atividade enquanto nos EUA (também com ensino integral e 17º colocado na pesquisa), há grupos de estudos depois das aulas que dão créditos para a faculdade e os alunos só podem se inscrever se não estiverem com problemas em nenhuma disciplina.

Sejam francos: acham que tais sistemas se implantados no Brasil darão certo? Já vi pais que se queixam que o professor passa muita lição de casa assim como outros que fomentam nos filhos que ir para a escola é desnecessário.

Colaboração de todos(as): se o aluno não tem proficiência em leitura, isto não se deve só a uma má qualidade no ensino de Língua Portuguesa. O aluno faz leitura dos textos em voz alta na aula de Geografia, por exemplo? Ele pode pagar R$ 6 para ir a uma biblioteca? E se ele for a uma livraria, encontrará obras acessíveis a um preço popular? O que é mais fácil dele encontrar no bairro dele: uma banca com alguns livros ou uma barraca com uma camiseta do Coringa e seguindo o embalo dos amigos, ele vai usá-la para ser igual aos outros?

O que quero dizer é que a melhora do ensino não depende só da Educação. Serviços públicos como transporte precisam melhorar assim como a mídia podia divulgar melhor os eventos culturais gratuitos ou a preços populares. Os impostos cobrados em vários produtos e serviços poderiam diminuir por um tempo para que a qualidade de vida melhore e consequentemente as pessoas possam se dedicar a projetos sejam eles professores querendo se aprimorar ou pais precisando ajudar os filhos nos estudos.

É claro que alguns podem se perguntar como eu concordo com o aumento do PIB para a Educação e peço redução na taxa de impostos no preço de materiais escolares ou de livros. Entretanto como eu disse no início dos tópicos, disposição é o que falta. E sendo o nosso país um dos piores em investir dinheiro de impostos, é necessário um planejamento e enxágue em gastos desnecessários para sairmos da lama na qual nos encontramos.

Obrigado a todos(as).

Davi Paiva da Silva nasceu em 22/03/1987, em São Paulo – SP. Está cursando Letras na UNICSUL, publicou o texto "18 anos sem Ayrton Senna" no site minilua.com, lança um capítulo por semana do seu romance "Coração de Fogo" no site www.recantodasletras.com.br, além de um microconto com a hastag #tweetcontos no twitter DaviTweetcontos e colabora com artigos no blog espadaarcoemachado.wordpress.com. No mundo impresso, participou das antologias de contos Corações Entrelaçados, Névoa, Quimera e Sopa de Letras, todas da Andross Editora.
Contato: davi_paiv@hotmail.com

10 Comentários

  1. Texto incrível. Super curti a sua visão, que não é incomum já que várias pessoas, inclusive eu, pensam assim. Valeu por passar isso para os leitores do blog.


    Abraços,
    http://cacandolivros.blogspot.com

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  2. Concordo com você em algumas partes, deixa eu participar com meu ponto de vista.
    A valorização do professor depende de alguns fatores, dentre os quais vc citou uns importantes. Mas tbm devemos acrescentar o fator respeito do aluno. Mts alunos apontam o dedo da cara do profissional como se ele fosse a lei e o professor um lixo. Pode procurar isso na internet ou perguntar a professores que vc irá ouvir relatos parecidos.
    A família não está mais presente da educação do filho. Não digo a educação oferecida na escola, mas sim aquela que é dever dos pais ensinar. Como vc mesmo disse que mts pais reclamam do excesso de dever de casa. Como assim? Dever de casa serve para que o aluno fixe o conteúdo da aula, e não um castigo como alguns pais acham.
    Tem uma imagem circulando na internet que relata mt o que está acontecendo com a educação. Antes os pais cobravam dos filhos empenho qndo tiravam nota baixa. Hj o filho é blindado e culpam o professor por isso. Será mesmo que é culpa do professor? Ou o aluno tem culpa qndo não assiste aula e prefere ficar no facebook a estudar?
    Falo isso pq vejo mts alunos no parque municipal que tem perto da minha casa. E eles chegam as 7hrs da manhã, uniformizados para ficar na internet (oferecida pela nave do conhecimento), jogar bola ou perturbar os frequentadores. Não é apenas um pequeno grupo, são mais de 20 alunos todos os dias. Esses daí se interessam em estudar?
    Meu noivo várias vezes parou a aula para pedir que alunos desligassem o celular e prestassem atenção na aula. E olha que nem é em escola pública, na maioria deficitária, e sim em escola particular com ótima infraestrutura. Para mts fotos no instagram são melhores que entender física.
    Eu já fui estagiária de uma turma em que o professor falava e geral no facebook, ninguém prestando atenção. Qndo cortavam a internet era aquela reclamação. Era a turma que eu não me sentia a vontade de cumprir minhas hrs, não via empenho de nenhum deles.
    Seus argumentos são válidos, mas não são só esses.
    Desculpa pelo texto longo, mas me senti a vontade de colaborar.

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  3. Oi, Carolinne. Beleza?


    Meu, pode escrever textos longos que estamos aqui pra isso. Em vários artigos eu sempre deixei claro que a opinião de vocês leitores complementa o que eu escrevo.


    Concordo com você em tudo o que disse a respeito da educação civil que os alunos insistem em não ter porque seus (ir)responsáveis não dão. Mas como já é algo que eu martelo desde o meu primeiro artigo, preferi deixar de lado o argumento e investir mais em pesquisa.


    Espero que leia os outros também, se já não os leu.



    Abraços.

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  4. Vou ler os outros artigos seus no blog. Achei a imagem que me referi no texto.

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  5. Davi que texto maravilhoso cara! Parabéns pelas ótimas reflexões!
    Tudo o que vc falou é a pura verdade, e concordo plenamente que a melhora da educação não deve vir só do governo, mas sim de todos os lados. A começar pela população, pela mudança de cultura.
    Essa coisa dos alunos não quererem investir nos estudos, acharem que estão fazendo um favor ao professor e à escola só em ir para às aulas é o fim da picada, mas é a nossa realidade dentro de sala, nas escolas públicas de SP.
    Os pais tmbm são outros, pois se vc não passa lição de casa, o cara reclama, mas se vc passa, os filhos não fazem ou eles reclamam que estamos mandando muita coisa pra casa e não está dando tempo dos filhos fazerem outras coisas.
    Fora que num país, onde pouco se lê, os professores, principalmente os de português (que são os mais cobrados e carregam N fardos), não podem pedir pra seus alunos lerem um mísero livro, pq os pais acham um absurdo terem que comprar algo, memso que seja o preço mais baixo do mundo.

    Não sei o que fazer ou onde vamos parar meu amigo, só sei que é isso que o governo quer, formar um país de ignorantes e a população C, D, F nem se toca. Fico tão triste com isso, e lamento todos os dias pelo país que meu filho, meus netos e fins serão obrigados a viver...
    Ótimo texto querido. Bjokas


    www.lerepensar.com

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  6. Muito bom o texto, acho que o brasileiro médio ainda tem uma mentalidade retrógrada em relação a educação. Somando isso com a qualidade do ensino, a qualidade dos prédios escolares e a má administração do capital (Essa da administração acho que é o maior problema, acredito que com uma gestão coerente, dá pra gastar metade do que gastamos numa educação de ponta e a outra metade numa remuneração condizente ao cargo de professor.

    Outro problema é a formação deficiente dos próprios professores, muitos deles ainda não saíram da faculdade e/ou possuem conhecimento extremamente limitado. Isso contribui para o desinteresse do aluno.
    É importante salientar que nem tudo são flores e o que parece ótimo em um país pode não funcionar no Brasil por diversos fatores.
    Faz sentido, por exemplo, a Finlândia estar na lista, já que possui um sistema de ensino infinitamente menor que o brasileiro.
    Faz sentido o Japão estar na lista também, seu ensino público é pago pela população não na forma de impostos, e sim como numa escola privada, as pessoas tendem a exigir mais de um lugar quando veem uma porção do seu salário saindo diretamente para aquele lugar. Não acha?
    Já os Estados Unidos, bem, lá tudo funciona de uma forma diferente. Lá só tem nome quem estuda em universidade privada ( e cara), e se você quiser entrar em uma dessas sem pagar, ou com um desconto, além de estudar tem que ser atraente as instituições. Muita gente se mata de estudar, faz tudo que tem que fazer e não consegue entrar na faculdade que quer.
    Fora isso a cultura é diferente em todos esses países, não acho que nenhum método desses funcionaria aqui (tirando uma gestão de qualidade) se não houvesse uma mudança radical no pensamento do brasileiro, como povo.
    Percebi recentemente que não adianta protestar pela educação tratando os governantes como únicos culpados, quando a população diz que a educação é extremamente importante mas, como você disse, não dá mérito ao professor.
    Pergunte para bons alunos o quanto eles sofrem por fazer a coisa certa neste país de coisas erradas e de malandros.

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  7. Esses dados que você expôs aqui são realmente uma vergonha para nós. O Brasil é uma das maiores economias do mundo, e é inaceitável que a Educação seja sofrível assim. Você está certíssimo quando levanta essas questões em relação a não valorização do professor. Junta-se a isso, o "poder" que pais e alunos exercem sobre os professores. Infelizmente agora quem manda na sala de aula é o aluno. O professor praticamente fica de mãos atadas. Enfim, acho que se quisermos melhorar algo, teremos que começar do zero. Infelizmente.

    @_Dom_Dom

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  8. De fato a organização e o investimento na educação brasileira é uma vergonha. A maioria dos políticos parecem não se importar muito com o caso - coisa que não acontece só no sistema de educação - e deixam grande parte da sociedade sem um aprendizado gratificante, ou as vezes sem nenhum tipo de aprendizagem. Concordo com que a diretora do Ministério de Educação da Filândia disse, que o investimento tem que ser organizado, coisa que nem existe na política brasileira.
    Não basta criar alguns projetos, como o das cotas, e achar que o problema será resolvido. Os professores tem que ser mais valorizados, as escolas tem que oferecer uma estrutura digna e a mídia começar a divulgar, como Davi mesmo disse, os projetos culturais que acontecem em todo o Brasil.
    E para esse ministro, Guido Mantega, a única pergunta que fica é: Por que não dá para gastar 10% do PIB na educação pública brasileira, quando o Brasil é um dos países que possui os impostos mais altos do mundo?

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  9. Sinceramente toda vez que saem essas pesquisas para avaliar ao relacionado a educação no Brasil eu me sinto envergonhada, é incrível como grande parcela da população brasileira não é educada para respeitar o professor como o maior formador de opinião que existe na sociedade, como o maior contribuinte para a formação do bom profissional. Realmente acho que as pessoas não pensam que se não fosse por nossos professores nós não estaríamos no lugar onde estamos hoje, se existem juízes, médicos, engenheiros, farmacêuticos, dentistas, advogados, físicos, historiadores é porque um dia uma grande pessoa contribuiu para isso, um professor, sem eles não seriamos nada. Sou defensora da ideia que o maior salário vigente no país deveria se de um professor, e o mesmo não merece só uma retribuição financeira a sua altura ele principalmente merece um retorno pessoal, ele merece que a sociedade o respeite, o valorize. A questão da educação em outros países, não é só porque os governos se organizam melhor, que o Estado saiba administrar e pagar bem os professores. Mas creio que se deve ao fato, principalmente de que os professores são postos em pedestais, são colocados em lugar de honra, porque é isso que eles merecem 'honra'.

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  10. Oi, Fabiano. Beleza?
    Obrigado pela leitura e pelo seu comentário. Realmente temos que exigir de nós mesmos os estudos que queremos e não fica só dependendo dos poderosos. Por outro lado creio que se os elegemos é porque queremos que eles deem um jeito na situação também. Estou ciente que nós temos um poder incrível em mãos seja como estudantes ou como responsáveis por eles (veja o meu artigo sobre participação dos pais na vida escolar). Contudo ressalto que "a parte mais forte da corrente" está ao lado deles.
    Abraços.

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