Manual Prático do Ódio, Ferréz, 1ª edição, São Paulo-SP: Planeta, 2014, 272 páginas.
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As grandes cidades, em especial as periferias, se transformaram em cenários para disputas por interesses próprios e que podem, de alguma forma, mudar a vida de quem é capaz de tudo para conquistar seus objetivos. Lúcio Fé, Aninha, Régis, Celso Capeta e Neguinho da Mancha na Mão são apenas algumas das pessoas que representam os mais pobres e enfrentam diariamente a opressão imposta pela sociedade de um modo geral.

Em um livro recheado de assassinatos e dificuldades, encontramos o que de mais real existe nas periferias: a violência, a corrupção que une os antagonista e aqueles que deveriam exercer o protagonismo, a ambição por uma vida melhor, o rancor e as inimizades entre os que buscam vencer e se destacar.

“O justiceiro cumpriu seu papel, o urubu que o Estado aplaude fez sua obrigação, um maloqueiro a mais apareceu caído pela manhã, com os braços abertos, sem camisa, de chuteira, com um shortinho azul de cordão branco, com as pernas retas, o rosto virado, o sangue já endurecido misturado com o barro, quem olhasse de longe juraria que era somente uma criança, que devia ter muitos sonhos” (pág. 158).
Apesar de estar fora da grande mídia, Ferréz é um dos mais importantes escritores de sua geração e ficou conhecido por sua ligação com o movimento Hip Hop e por representar a chamada literatura marginal. Em seus livros, o escritor paulistano mostra a realidade das periferias da maior metrópole da América do Sul de forma crua e inspirada em fatos comuns no cotidiano da população mais pobre.

A leitura de Manual Prático do Ódio sugere que a importância do autor se deve mais aos temas, bem como a veracidade dos mesmos, do que simplesmente por seu estilo literário. Mesmo original, a escrita pouco convencional não deve agradar a todos, já que ao não se preocupar com regras e apresentar períodos exageradamente longos, sempre abusando da linguagem das ruas, Ferréz agrada apenas quem busca entretenimento.

Ter a consciência de que Ferréz escreveu, por exemplo, para o seriado Cidade dos Homens já cria certas expectativas. Nesse ponto elas foram atendidas, já que o livro retrata com fidelidade a crueldade da rua e a corrupção encontradas na sociedade, seja ela rica ou pobre. Isso muitas vezes em cenas fortes e distantes de nossa realidade.

Com seu texto, o autor leva seu leitor para dentro das comunidades e assim apresenta as particularidades e as múltiplas histórias de vida encontradas ali. A infinidade de personagens torna isso mais verdadeiro, mesmo sendo impossível se simpatizar com esse ou aquele personagem, já que a princípio muitos são jogados desnecessariamente ao enredo.

Mas assim como a escrita, a estrutura de Manual Prático do Ódio é um tanto quanto confusa e dessa forma é necessário certo tempo para se acostumar com algo tão diferente. Não há divisão de personagens e muitas vezes é difícil compreender aonde o autor quer chegar com certas passagens, por mais impactantes que possam ser. Infelizmente, quando tudo começa a ficar bom, a história chega ao seu final.

Assim como a vida, o livro publicado originalmente em 2003 não segue um roteiro e muito do que acontece é surpreendente. Mas está muito aquém do esperado, ainda que as personalidades e a união ou desunião dos protagonistas em busca de seus objetivos sejam essenciais para no fim revelar as consequências do ódio. Assim como o próprio sistema, fica claro que o ódio instiga o instinto animal e a crueldade presente em todos que precisam enfrentar e sobreviver aos desafios diários.

“Em seguida o barulho foi ensurdecedor, Régis com duas pistolas na mão não deixou que Alemão nem engatilhasse a arma que trazia à cinta, Alemão caiu em cima do freezer de sorvete, Régis se aproximou de Marrocus e disse que dali a algumas horas voltaria para ver o movimento, se tivesse alguma caguetagem o próximo seria o delator” (pág. 183).

9 Comentários

  1. Olá Ricardo :)
    Infelizmente, esse não é um livro que me atrai muito... Não faz meu estilo de leitura.
    Mas adorei a sua resenha... Não gosto muito quando precisamos nos adaptar a uma nova escrita, mas enfim :(
    Beijos,
    Ana M.
    http://addictiononbooks.blogspot.com.br/

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  2. Eu tenho esse livro na estante e estou com muita vontade de ler! Gostei muito da sua resenha.
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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  3. Olá Ricardo,

    Esse é mais um livro que fico conhecendo aqui no seu blog, gosto muito do estilo e fiquei bem curioso, parabéns pela sua resenha, gostei da dica....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  4. oi
    isso que você falou sobre a escrita diferencia, que pode ser um tanto confusa me desestimulam a ler o livro, mas acho que o que eu menos gosto é essa temática pesada infelizmente atrelada a realidade. Eu não me importo de ler cenas de luta ou violencia em batalhas épicas, em mundos imaginários, mas qnd ela beira a realidade não se torna uma leitura agradável para mim. Muito boa a sua resenha.
    tem postagem nova no meu blog
    espero sua visita
    bjs

    -TÍTULOS DE LIVROS

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    1. Você tem razão ao ressaltar a grande diferença entre a violência de livros "reais" e os fantásticos, Juliana. Acho que já li coisas muito piores, também longe da fantasia, mas nesse caso, por ser passar em nosso próprio país, causa um sentimento muito diferente. Definitivamente não é um livro para todos.

      Beijos,

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  5. Não conhecia o livro, mas além de não fazer meu estilo acabei decidindo que não daria uma chance após ler sua resenha. Livro com escrita confusa é terrível, a leitura não flui e eu não estou disposta a forçar nada!

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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  6. Oi, Ri! Meu, parabéns pela resenha. Não estou acostumada a ler livros que tratem de temas assim, tão reais como a periferia, e tristes também. Todavia, gostei do que disse a respeito desse e acho que não seria nada mal iniciar a leitura dessa espécie de história que consegue nos dar um certo tapa na cara. Bom, apesar da curiosidade que você me deixou após a resenha, o fato mencionado a respeito da escrita me deixou com um pé atrás. O que é meio irônico pelo que disse, né?

    Um beijo!
    Doce Sabor dos Livros - Aguardo sua visita!

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  7. Oi Ricardo!! Eu não conhecia esse livro, gostei muito da tua resenha e achei a temática interessante, por mostrar a verdadeira realidade das periferias. Espero um dia poder lê-lo, fiquei bem curiosa.
    Um abraço!

    Lara - Magia Literária
    http://www.magialiteraria.com/

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  8. Não sou muito fã de histórias que beiram a realidade e, com esse, não foi diferente. Essa escrita diferenciada também não me agrada muito. Fora essa inserção de personagens e/ou cenas desnecessárias. Enfim, esse eu deixo passar!!!

    @_Dom_Dom

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