Capítulo V: Tenebra



  
  Estava cercado de dúvidas, a respeito deste “Kurt”. Não tinha uma pista de onde encontrá-lo, muito menos a forma com que devia matá-lo. Foi então que consultei o Sr. Das Trevas:
  - Certo... você quer que eu mate esse maluco, tal de Kurt, certo? Mas como você quer que eu faça, sendo que você se quer deu informação sobre este indivíduo? Onde posso encontrá-lo?
  E nada de resposta, tudo quieto. Provavelmente, ele queria que eu me ‘virasse’, resolve-se do meu jeito, talvez para testar a minha devoção diante dele, ou simplesmente por algo que não fazia idéia do que era, mas isso menos importava.
   Minhas habilidades de criminalista eram fundamentais, para encontrar pistas deste pastor. Foi então, que comecei a vagar pelos becos de NY, olhando cada canto da cidade, a procura deste rato. Creio que o esgoto em que ele vivia estava mais perto do que imaginava.
   Caminhei por mais dois ou três quarteirões, e acabei descobrindo algo. Olhei atentamente para uma lata de lixo que estava caída sobre a calçada, que provavelmente algum cachorro vira-lata tratou de virá-la. Vi algo semelhante a um livro, em meio a tanto lixo. Achei curioso, então resolvi pegar. Ao tocar com meus dedos no livro, minha mão começou a se desintegrar, era uma dor desgraçada, semelhante à de queimadura. Arremessei o livro sobre o chão, foi então que vi que este ‘livrinho’ era uma bíblia. Tornei-me realmente um demônio, o clichê de um demônio queimar, ao pegar em algo sagrado havia tornado realidade. Mas me questionei: “O que uma bíblia estava fazendo no lixo?”. Nunca fui religioso, porém sei que quem possui uma bíblia jamais jogaria esta no lixo. Aquela bíblia poderia resolver minha dúvida, de onde encontrar Kurt Matthew. Precisava encontrar alguma forma de abri-la.
    Logo ao lado, em um beco, vi um mendigo deitado, embaixo de papelões. Pela primeira vez, um mendigo seria útil. Caminhei até ele, agachei diante daquele verme, olhei atento para seus olhos, que estavam fechados. Sem precisar dizer nada, aquele pedaço podre, abriu os olhos, olhando assustado para mim, e de imediato, dizendo:
    - Eu não tenho nada, eu não fiz nada, não me mate não me prenda!
    - Não quero nada disso com você, apenas quero que você me faça um favor. Está vendo aquela bíblia ali no chão? Então, quero que você pegue-a e traga para mim.
   Amedrontado, o mendigo, sem questionar o porque disso, correu até a palavra de Deus, e apanhou-a rapidamente, trazendo até mim na mesma rapidez em que foi até ela.
    - É essa aqui, senhor? Tome!
    - Imbecil, se pudesse pega-la, não diria para você ir buscar para mim. Agora, quero que você a abra.
   O rato abriu a bíblia, e logo na contra capa, encontrei o que precisava. Estava escrito:” Caso encontre esta bíblia, favor entre em contato com Kurt Matthew, da Assembléia das Esperanças das Nações, fone: (718) 956-0624. Nossa Assembléia se encontra perto da Ponte do Brooklyn. Que Deus te abençoe!”
  Era mais um acontecido que definitivamente provava, que após meu pacto, a sorte havia se tornado minha amiga.
  Pedi para aquele mendigo embrulhar a bíblia em um saco plástico ou algo parecido. Ele puxou, de debaixo de seus papelões, um saco plástico preto. Seria perfeito, para levar até Kurt, o seu livro perdido.
   Ao tentar caminhar, em direção a rua, o mendigo me segurou pelo braço, dizendo:
   - Não, não, “se” não vai embora antes de me dar uns trocados!
  - Me solte seu verme!
   Presenteei-o com um murro na ‘cara’. Então, consegui partir.
   Avistei um Camaro 74, voando pela rua. Precisava roubar aquele carro para chegar rapidamente até Kurt. Parei no meio da rua, na esperança de que o carro freia-se. E isso foi feito, então, me aproximei da porta do carro, e a abri, violentamente, removendo o motorista. Tomei posse do veículo, e sai rasgando as ruas de Nova York.
   Já tinha noite, quando no horizonte avistei a tal assembléia. Em sua fachada, estava estampada uma bandeira dos EUA, e sem mais símbolos religiosos. Logo abaixo, um letreiro enorme, anunciando “Assembléia das Esperanças das Nações”. Havia chegado ao ponto do abate. Encostei o carro na calçada, em frente ao local, e fiquei esperando.
    As luzes que ofuscavam através das janelas, começaram a apagar, uma a uma. Na esperança de ter sorte, outra vez, comecei a crer que era Kurt, a ponto de sair de lá, provavelmente após alguma reunião de oração, ou culto. Depois de alguns minutos, todas as luzes se apagaram, e a porta da frente se abriu. Enxerguei um homem ruivo, engravatado. Provavelmente, era meu alvo. Ele parecia ser um pastor, pois há dois seres neste mundo, que usam gravatas, e são uns vermes: Pastores e Políticos. Ele não tinha cara de político.
   Abri a porta do carro em que estava, e caminhei com a bíblia que encontrara mais cedo no lixo. Perguntei:
   - Me desculpe, mas o senhor é Kurt Matthew?
   - Sou sim, em que posso ajudá-lo?
   - Estava vagando por ai, e encontrei esta bíblia jogada em um lixo, e nela continha informações que me trouxeram até aqui, creio que seja sua.
   Entreguei a bíblia a ele, analisando o indivíduo, tentando descobrir como matá-lo. Após abrir e folhar a bíblia, o homem respondeu:
   - Oh, meu Deus, muito obrigado! Você não sabe o quanto fiquei desesperado atrás desta bíblia! Realmente, estou muito agradecido... Que Deus te abençoe.
   Ao ouvir “que Deus te abençoe”, senti que soava os sinos do inferno dentro de mim. Era novamente, aquela sensação de estar queimando. Meu corpo ficou fraco, perdi a força nas pernas, e acabei caindo no chão. Kurt, preocupado, perguntou:
   - Meu Deus, o que houve com você rapaz! Você esta se sentindo bem?
   E então, ele olhou fundo em meus olhos, percebeu que os mesmos estavam vermelha cor de sangue.  Sem cerimônias, ele percebeu o do que se tratava:
   - Ah... Então é isso, você foi enviado para me matar não é? Deve ser por causa do meu passado... Ainda tenho latente, dentro de mim, vestígios daquele pacto... Deve ser por isso que você está aqui, não é? Para recuperá-lo, e desencadear o apocalipse sobre o mundo. Mas eu não vou permitir. Em nome do Senhor, repreendo todo...
    Antes de terminar de falar, me senti firme outra vez. Meu amigo estava fazendo contato mais uma vez:
   - Ora, ora, não é que você achou este desgraçado? Pelo visto, você não é nada sem meus poderes não é? Bastou uma palavrinha sobre Aquele cara, que você já esta se contorcendo todo aqui, feito um lixo? Levante-se, use de meu poder, eu sei que você quer, eu sei que você precisa. Que soe a quinta trombeta do apocalipse!
    Depois destas palavras, me senti poderoso, e após a última frase do meu amigo, gafanhotos começaram a sair de minha boca, em direção de Kurt, que não teve como terminar a sua frase de repreensão.
     Kurt foi torturado por alguns minutos, pelos gafanhotos, até que eles se foram, e deixaram o homem desmaiado. Questionei o demônio:
     - Como devo matá-lo? Há alguma forma específica de fazer isso? Creio que não será tão simples, pois ele é servo de Deus.
    - Ahh... Admiro a sua capacidade de compreensão, Lucas. Realmente, não será tão simples assim. Para matá-lo, você precisará fazer algo bem interessante, enquanto ele esta desmaiado. Sei que se lembra perfeitamente, o que você fez mais cedo, naquela casa em ruínas. Você terá que fazer o mesmo, porém, ao invés de usar o seu sangue, você terá que usar o sangue de Kurt. Corte o pulso direito dele, faça um pentagrama em volta do corpo desmaiado. Depois, você só precisará falar algumas palavrinhas mágicas : “Tenebris dominatur corpore hominis”. Isso será o suficiente para matá-lo, e trazer a alma dele aqui em casa.
     Antes que responder, luzes fortes começaram a me segar. Comecei a ouvir barulho de sirenes, e então percebi que era um cerco policial. Um dos policiais, anunciou em um megafone:
    - Polícia de Nova Iorque, você está preso pelo furto de um Camaro ano 74, e pela morte de Kurt Matthew, ajoelhe-se!
    - Haha, ele não está morto, está desmaiado!
   - Ajoelhe-se ou vamos atirar!
   Vi um outro policial, cochichando com o que estava com megafone, e após isso, retornou a gritar naquele aparelho irritante:
   - Meus Deus, é você Lucas? O que diabos aconteceu com você?
   - Não sou Lucas, agora eu sou um anjo do apocalipse!
   Não fazia idéia do que estava dizendo, provavelmente foi o demônio que me fizera dizer tais palavras, pois eu era um fantoche em suas mãos.
    Estava diante de um problema, precisava matar Kurt e fugir dos meus antigos colegas de trabalho, mas meu coração dizia que não devia machucá-los. Mas o poder do diabo, estava corrompendo os sentimentos do meu coração, e ao meu ver, matá-los tornou-se o certo. Não tinha escolha, pois minhas escolhas eram influenciadas por satanás. Ajoelhei no chão, e pensei “Seja o que Deus quiser.”  

Capítulo IV: O Início do Apocalipse

  
  Meu amor aproximou-se de mim, com seus lábios ardentes, a procura dos meus. A minha alma estava ansiosa para receber um beijo daquela mulher, mas sentia que não podia mais controlar o meu corpo. Minhas ações eram involuntárias, me sentia como um fantoche, como se alguém tivesse me controlando. Foi então o momento que as palavras daquele ser bizarro começaram a fazer sentido. Não foi um sonho, ou melhor, um pesadelo, foi tudo real, eu havia vendido minha alma para o demônio, em troca de minha vida.
  Quando Lavínia tentou me beijar, coloquei o dedo indicador de minha mão direita sobre os lábios dela, em tentativa de evitar que o beijo acontecesse, mas ela foi insistente, e tirou meu dedo de sua boca, e acabou me beijando. No mesmo instante, fez uma cara de espanto, e olhou para mim, dizendo amedrontada:
   - O que foi que aconteceu com você? Você parece diferente... Não parece ser o homem que eu costumava amar...
  Novamente, perdi o controle de minhas palavras, e nada conseguia sair de minha boca. Era obra de aquele ser infeliz.
   Ela então insistiu:
   - É por causa de nossas brigas não é? Ou é por causa desta gravidez? ... Anda me diga!
   E nada saiu de minha boca.
   Foi muito triste, ver o meu amor, naquela situação, falando com um fantoche sem coração. Nem sequer lágrimas escorriam de meus olhos, parecia que definitivamente, me tornara um ser sem sentimentos.
   Lavínia continuou a falar:
   - Você realmente não mudou nada desde que resolvemos morar separados... Está do mesmo jeito, mesmo depois de ter ficado em coma, a beira da morte. Vou indo embora, já fiz tudo o que tinha que fazer por aqui.
   E retirou-se daquele quarto de hospital. Mal ela sabia que este coma, foi uma ida para o inferno, onde o seu homem fizera uma escolha sem volta, um pacto eterno, com o senhor das trevas.
   Aos poucos, estava recuperando o poder sobre meu corpo, quando de repente, um médico corria desesperado em minha direção. Antes que ele chegasse até mim, recuperei minha posição de Homo Erectus, removi a agulha de meu braço e desconectei de meu corpo, aquele eletrocardiograma irritante, que já estava à beira de me deixar surdo, com aqueles “bips” infernais. Mesmo de longe, o médico gritou:
   - O que você pensa que está fazendo?
   Sem respondê-lo, comecei a caminhar em direção ao elevador.
   Começaram a aparecer homens de brancos por todos os lados, dispostos a me capturar e me prender mais uma vez, naquela cama imunda. Ignorei todos eles, e continuem andando até meu destino, foi então que aquele médico desgraçado me segurou pelo braço e gritou “Ajuda aqui!”. Senti uma vontade imensa de matá-lo, foi um desejo tão profundo, em meu coração, que misteriosamente, aquele maldito foi arremessado na parede, como se algum gigante tivesse o empurrado. Comecei a perceber o poder que estava correndo em minhas veias. Havia me tornado uma espécie de monstro, com poderes sobrenaturais. Não sei se era o ideal, mas estava gostando daquilo.
   Finalmente, cheguei ao meu destino, prestes a apertar o botão do térreo, para sair daquele “inferno”, comecei a sentir novamente aquela sensação de estar pegando fogo. Olhei para meu corpo e estava em chamas, porém nada sentia apenas me senti poderoso, imortal. Vi ao fundo, aqueles homens correndo para me pegar, e sem pensar duas vezes, olhei com um olhar maligno nos olhos destes, foi então que uma bola de fogo saiu de meu peito. Todos começaram a queimar... E morrer. Depois de muito tempo, acabara de me tornar um monstro totalmente sádico.
   Cheguei ao térreo, o fogo de meu corpo se apagou, sai normalmente em direção a porta de saída, como se nada houvesse acontecido em alguns andares acima. Muitos me olhavam, com olhares de espanto, por me verem com aquela roupa de hospital, saindo normalmente até a saída. Percebi que era hora de colocar algo descente em meu corpo.
   Caminhei até a calçada, e vi um homem de estatura semelhante a minha. Era meu dia de sorte, sim, S-O-R-T-E. Pela primeira vez, em minha vida, a sorte estava do meu lado. Aquele pacto parecia estar me fazendo bem. Fui em direção deste homem, sem hesitar, o peguei pelo pescoço, e o arremessei ao chão, onde ele bateu a cabeça e desmaiou. Antes de seu sangue terminar de coagular, removi a roupa daquele indivíduo e as vesti. Sem alarmar mais ninguém, segui em frente, pela rua do hospital, caminhando sem destino.
    Já estava anoitecendo, o sol estava se pondo no horizonte, e os poucos raios vermelhos restantes, estavam me cegando. Fazia horas que estava vagando pela cidade, sem rumo algum. Estava sem dinheiro, sem minha carteira, sem as chaves de meu apartamento. Não sabia se ainda tinha meu emprego, então nem fiz questão de ir até o departamento de polícia.
   Mesmo depois de tanto tempo caminhando, não me senti cansado, mas resolvi sentar em um banco, que estava debaixo de uma arvore, em frente a uma casa abandonada. Sem esperar, aquela voz voltou a me atormentar:
   - É magnífico o poder que você possui não? Está surpreso por conseguir carbonizar aqueles homens no hospital, ou por ter arremessado aquele médico inocente na parede, causando um traumatismo craniano? Conheço-te bem, sei que nada disso te surpreendeu, pois você nada teme, não é?
  - O que você quer? – Respondi pra esta voz
  - Ora, ora meu fantoche. Agora que você é meu, você precisará fazer algumas tarefas para mim. Primeiramente, está vendo esta casa atrás de você? Quero que você entre lá.
  - Ah. Você quer que eu entre... Se eu sou seu fantoche, por que você não me controla, e me faz entrar lá?
  - Não seja mau, só estou tentando ser amigável, ser seu parceiro! Mas se você quer que eu controle você, não reclame das conseqüências HaHa!
  - Que merda! Vou entrar nessa porcaria, “parceiro”
  - Bom rapaz, bom rapaz!
  Caminhei até a porta daquela casa caindo aos pedaços. A porta estava selada, com madeiras entrelaçadas, provavelmente quem as colocou ai, não queria intruso. Coloquei a mão sobre elas, e sem dificuldade, as removi de uma só vez. Meus punhos estavam fortes, sentia que poderia quebrar qualquer coisa com eles.
   Entrei pela porta, que dava até uma sala. Por dentro, a casa estava tão destruída quanto por fora, sem móveis, sem nada, apenas ratos e insetos malditos. A madeira que compunha a estrutura da casa estava preta, de tanto pó, e totalmente podre. A voz retornou, dizendo:
  - Agora quero que você caminhe ao cômodo a sua esquerda.
  Feito isso, a voz continuou:
  - Ahh.. Agora é minha parte favorita. Corte o seu pulso, com suas unhas, para que sangrem.
  - Você está louco, não vou fazer isso?
  - Vai sim!
  Contra minha vontade, minha mão direita, cortou meu pulso esquerdo, e inevitavelmente, meu sangue começou a coagular.
  - Isso, sangue, SANGUE! Continuando, desenhe no chão, uma estrela de ponta cabeça, com o seu sangue... Depois, faça um círculo em volta dela.
  - Era só dizer “Um pentagrama invertido “, demônio burro.
  - Haha! Me faça rir... Sem distrações, agora! Vamos continuar...
  Não era necessário um conhecimento amplo, sobre o mundo em que vivemos para perceber que aquilo se tratava de um ritual.
  Feito isso, ele continuou ditando minhas tarefas:
  ­- Vamos testar suas habilidades, Lucas. Para continuar nosso joguinho, vou precisar que você faça umas coisinhas. Há um homem, chamado Kurt Matthew. Alguns anos atrás, ele fez um pacto comigo, assim como você, e devolvi a vida a ele. Porém, ele rompeu este pacto, e começou a seguir o homem lá de cima. Tornou-se pastor, então, todo o poder que tinha sobre aquela alma insignificante se foi, pois o Senhor dele, fez o favor de remover, com sua divindade.
  - E o que tenho que fazer com esse cara?
  - Acertar as contas, por mim. Mesmo depois de ter se tornado pastor, ele ainda possui meu poder, que está latejante dentro da alma dele. Então, preciso que mate-o, para que eu possa recuperar este poder.
  - E o que você ganha recuperando todo o seu poder?
 - Você ainda não deduziu? Não percebeu o motivo deste pentagrama, ai no chão? Você irá me invocar! A era do Apocalipse irá começar, e tudo está em suas mãos, basta apenas que faça tudo o que te ordenar
 - Que assim seja.
 Aquele demônio se tornou meu único amigo. Parecíamos irmãos... Bem, de certo modo, tínhamos uma ligação, pois possuía um pouco do poder dele.
 Estava com uma vontade de matar novamente, de ver a morte com meus olhos. Sem cerimônia, parti a procura de Kurt Matthew.


Capítulo III: Frente a Frente com o Demônio



   Minha cabeça latejava forte, sentia que estava a ponto de explodir. Abri os olhos lentamente, porém nada pude ver, pois nada havia ao meu redor. Estava sentado em uma cadeira de madeira, com os braços amarrados por uma corda, com um facho de luz vindo do alto, descendo até minha cabeça, iluminando o local onde estava. Parecia que estava em alguma outra dimensão, pois estava tudo escuro, e não conseguia ver um final, no horizonte. Nem se quer, conseguia ver o horizonte, o único campo de visão que eu tinha, era desta luz.
     Não conseguia entender o que estava acontecendo, pois a minha ultima lembrança, era de um acidente que havia sofrido em uma esquina qualquer, dirigindo um Sedan confiscado. Lentamente, comecei a ouvir passos bem distantes, e aos poucos, o som emitido por estes passos, tendia a aumentar. Provavelmente, era alguém que estava se aproximando. Desesperadamente, sem conseguir pensar em algo melhor, tentei pedir por ajuda, mas minha voz não saía. Senti-me em um universo psicodélico, um daqueles pesadelos clássicos que temos, onde estamos em apuros, mas não conseguimos correr ou pedir por ajuda, porém, aquela situação era tão real, era quase impossível ser um pesadelo.
    Pude ver uma pessoa, um tanto quanto distante, olhando para mim. Identifiquei algumas características desta pessoa: era um homem, usando um Smoking, com um cavanhaque comprido, diversos acessórios de ouro espalhado pelo pescoço, inclusive anéis, com símbolos que pareciam ser de alguma seita ou clã ocultista. Este homem era um tanto quanto obscuro, teus olhos brilhavam, com uma cor escarlate, e em volta de seu corpo, havia uma espécie de fumaça, algo parecido com uma aura. Dali em diante, já não entendia mais nada do que estava acontecendo, apenas abaixei minha cabeça, e deixei que o tempo passasse.
    Cabisbaixo, tentava olhar pelo canto do meu olho, o que este homem estava fazendo lá parado. Ele ficou na mesma posição, olhando diretamente para mim, por uns 5 ou 10 minutos, não sei exatamente, pois no estado em que eu estava, já não tinha mais noção de tempo, muito menos do que era real, ou fictício... Muito menos, quem eu era.
    Passados mais alguns minutos, este homem aproximou um pouco mais, chegando bem perto da luz que vinha do alto. Ele então, com uma voz grossa, rouca e medonha, me questionou:
     - Você está com medo?
A aproximação deste homem fez com que eu recuperasse minha voz, de uma forma misteriosa. Consegui responde-lo friamente:
      - Deveria estar?
      - Ora, Ora... Você realmente se tornou uma pessoa fria, já não sabe mais o que são os sentimentos... Amor, ódio, medo, prazer, dor... Creio que você os desconhece... Você tem trabalhado muito, Sr. Linnankivi...  
     Fiquei surpreso, ao ver que este indivíduo sabia alguma coisa sobre mim, pois eu era alguém bem fechado, sem muitos amigos, sem ninguém para contar sobre minha vida. Ele tornou a falar:
     - Sim, eu sei que você está surpreso por ver que sei algo sobre sua vida... Ou sobre seus “sentimentos”, estou certo?
    - Se você sabe que está certo, por que perde seu tempo, me questionando?
    - HaHaHaHa!  Você realmente se parece muito comigo, por isso que eu gosto de você... Você é sádico, e não se importa com o sentimento dos outros, nem mesmo com aquilo que vão achar de você... não se importa com a reação que virá depois das ações ingênuas, que o senhor insiste em cometer, a cada segundo de sua vida...
     - Você fala de mais, palhaço.
   Maltratar aquele homem, com aparência demoníaca, provavelmente era uma das ações ingênuas que o mesmo havia citado. Mas nada mais me importava, pois já estava frente a frente com o demônio.
     -  HaHaHaHa! Palmas, Palmas! Você é de mais! Acho que devo te dar um Oscar por esta brilhante cena... É admirável que você não se intimide, diante de mim, não? Mesmo sabendo quem sou eu...
   - Não temeria você, nem mesmo que você fosse o diabo!
   - Você acertou, SOU EU MESMO! – Gritou este homem, com uma voz demoníaca. Parecia uma voz de um destes filmes de terror, onde o protagonista encontra com o demônio. Desta vez, eu não estava em um filme, era tudo real, ou aparentemente real.
    De imediato, a escuridão ao meu redor desapareceu, e foi substituída por uma cadeia de montanhas, com lava caindo delas, junto com arvores mortas e ossadas espalhadas. A cadeira em que estava preso desapareceu e misteriosamente, fiquei em pé, involuntariamente. Aquele homem, ou melhor, aquele Demônio estava mais uma vez diante de mim, desta vez diferente. Em sua cabeça, chifres enormes e curvados, nas costas, asas que mediam mais de 4 metros, um corpo musculoso, com uma altura quase impossível de medir a olho nu.
    Olhando, mais uma vez, diretamente para mim, sorrindo, me deu boas vidas:
   - Seja bem vindo ao meu lar!
   - Oh! Que gentil, só está faltando uma xícara de chá, com biscoitos para ser uma visita perfeita, a este Inferno.
   - Ah, Lucas, você é um comediante de primeira. Você até parece um amigo de infância...
   - E demônio tem infância? Há Há Há!
   - Você me faz morrer de rir... Se eu pudesse morrer, é claro! Mas chega de “bla, bla, bla”... É assim que dizem em seu mundo, quando estamos falando de mais, sem chegar a lugar algum, não? Pois bem, eu tenho uma proposta a lhe fazer.
   - Vá em frente, cite as regras.
  Ainda não consegui identificar se tudo era real, mas aparentemente, eu havia morrido naquele acidente, e estava prestes a acertar minhas contas. Ouvi atentamente a proposta que ele estava para fazer:
   - Você perdeu sua vida naquele acidente fútil de carro, por causa da sua irresponsabilidade. Como pode, um criminalista tão dedicado, a ponto de trocar a família pelo trabalho, morrer de uma forma tão irresponsável, por conta de vícios?
   - Lamentável não? – Respondi, com um sorriso em meu rosto
  - Muito... Mas, como eu gosto de você, vou fazer algo de bom, para te ajudar. Desde que me tornei um anjo caído, nunca ninguém me fez rir tanto, quanto você. Sua recompensa será ter sua vida de volta, sem seqüelas do acidente. Porém, tomarei posse parcialmente do livre arbítrio, que o Cara lá de cima te deu...
   - Serei seu fantoche?
   - Você é bem esperto... Se você aceitar este pacto, a partir do momento em que seus olhos abrirem, na Terra, sua alma, seu corpo serão meus.
   - De que vale viver minha vida novamente, se não terei controle dela?
  - Mas é claro que você terá controle sobre ela, porém, você não terá mais direito de escolha. Eu irei criar o seu destino, queimando aquele que o Homem lá das nuvens escreve. Você aceita?
    Se eu aceitasse este pacto, provavelmente eu não seria como antes, minha vida não seria a mesma. Mas já me sentia possuído pelo demônio, mesmo antes de morrer, pois sempre vivi uma vida desgraçada, sem privilégios, regalias, nem mesmo sorte. Não tinha nada a perder, então minha resposta foi:
    - Sim...
   Ao responder esta pergunta, pude ver meu corpo pegando fogo, mas não sentia dor. A áurea que estava ao redor daquele Homem Demônio veio em minha direção, e entro no meu peito, e logo depois disso, tudo ficou branco novamente.
   Comecei a ouvir “bips”. Senti que havia algo espetado em meu braço esquerdo, liberando um líquido gelado que entrava em minhas veias. Comecei a ouvir gritos, como se algo estivesse acontecendo:
   - Oh meu Deus, ele está acordando, ele está acordando! Chame um médico, rápido!
    Meus olhos se abriram, mais uma vez, vagarosamente. Eu estava em uma cama de hospital, com meu corpo estirado, todo engessado. Percebi que os “beps” era um eletrocardiograma, medindo minha variação cardíaca. Aquele líquido gelado, nada mais era do que soro penetrando em minhas veias. Estava imóvel, podia sentir meus membros, mas não conseguia os movimentar.
   Tornei a ouvir gritos, desta vez, eram mais agudos, e logo pude reconhecer. Era Lavínia, desesperada, vindo em minha direção:
   - Só pode ser um milagre! Não acredito você está de olhos abertos, meu amor!
   O trato estava feito, eu havia renascido e finalmente saído daquele estado psicodélico. Sentia-me agora, em um estado de afasia, mas ao menos estava relaxado, com minha mulher dizendo “Meu amor”. Jamais esperava ouvir tais palavras novamente, daquela boca perfeita.
    Quando comecei a acreditar, que finalmente eu poderia ter uma vida melhor, ao lado de minha mulher, pude ouvir a voz daquele homem, ecoando em meus pensamentos:
   - Nem pense em aproximar dela, você é meu fantoche, agora você pertence a mim.
    Olhei no fundo dos olhos dela, enquanto em câmera lenta, ela ainda corria em minha direção. Eu iria perdê-la, por causa de meus erros, de minha irresponsabilidade.
    O meu sofrimento acabara de começar. 

Capítulo II: Senhora Sorte



Desci rapidamente pela escadaria do prédio, localizada no fim do corredor de meu andar. Estava sem tempo para esperar a chegada do elevador, pois cada segundo era precioso para mim. Os ponteiros de meu rolex estavam cravados em 1:10AM, tinha apenas 20 minutos para chegar ao departamento.
 Finalmente, cheguei ao hall de entrada, todo iluminado, com luzes fortes, com pilares de mármore sustentando o local. Instantaneamente, uma recepcionista, com cabelos louros, me perguntou:
  - Posso ajudá-lo, senhor? Você me parece agitado!
  - Ninguém pode me ajudar... – Respondi friamente, olhando fundo em teus olhos claros – Preciso de meu carro, agora!
  - Dirija-se ao estacionamento, senhor.
 Sem presentear a recepcionista com meu agradecimento, fui expressamente ao estacionamento do hotel, localizado no andar subterrâneo.
 Ao adentrar, percebi que o estacionamento estava completamente vazio. Minha BMW 760 prateada não estava em lugar algum. Talvez, todos os moradores do Duane Street Hotel saíram com seus carros, mas não entendia por que motivo o meu não estava lá. Perguntei sobre o paradeiro de meu veículo, para o porteiro responsável por fiscalizar a entrada e saída de carros do hotel.
   - Sinto muito, senhor...  – Disse o porteiro, de cabelos grisalhos, com uma xícara de café na mão, e com um charuto na outra – me recordo que o senhor deixou seu veículo estacionado em frente ao hotel, do lado de um hidrante. O seu carro foi rebocado, e levado. Pediram para que entregasse este papel, com o valor definido para a retirada do carro, no estacionamento da polícia.
   - Droga, por que eu não fui avisado? Preciso urgentemente de meu carro!
   - Me desculpe senhor, a recepcionista disse que, mais cedo, quando o senhor chegou do trabalho, pediu para que não fosse incomodado, em nenhuma circunstância, achei então que isto seria irrelevante. Pensei então que o senhor poderia tomar conhecimento do acontecido, ao descer até o hall de entrada e...
  - Não diga mais nada... Até mais ver
  Sai de lá cuspindo fogo pelas ventas.
Os problemas tendiam a se acumular cada vez mais em minha vida, agora teria que pagar uma multa altíssima por parar em frente de uma porcaria de hidrante.
  Corri em direção a rua, procurando por carona, mas estava vazia, e eu não tinha nem um conhecido por perto, que poderia me fazer tal favor. Andei alguns metros, até chegar à esquina, foi então que vi um Sedan parado em frente à Raimo Pizza, provavelmente de algum cliente que estava empanturrando insanamente. Não tive alternativa, a não ser confiscar este carro. Cheguei furtivamente até a sua porta esquerda, e percebi que estava com o alarme desligado e com o vidro da porta do lado direito abaixado. Estava muito fácil de ser roubado, ou em termos policiais, “confiscado”. Provavelmente, o dono do carro não teve preocupação em trancar o carro, pois de dentro da pizzaria, ele tem um grande campo de visão do seu carro. Espreitei até a porta direita do veículo, e dei uma olhada para ver se conseguia identificar o dono. Não foi difícil, ele era o único cliente que estava presente no estabelecimento. Era um homem gordo, calvo, vestido com um suéter azul de mangas compridas. Ele estava de costas para seu carro, então pensei que minha sorte estava mudando. Mas estava enganado, pois quando tentei pular pela janela do Sedan, um atendente que estava ao telefone, gritou desesperadamente para o gordo de suéter:
  - Meu Deus, o seu carro está sendo roubado!
  Em tentativa de acalmá-lo, retirei meu distintivo do bolso de meu agasalho, e gritei:
  - Polícia de Nova Iorque! Estou confiscando seu veículo!
  Tentativa na qual tornou a situação ainda mais problemática, pois ambos desacreditaram que eu fazia parte da NYPD, acreditavam ser um disfarce de um criminoso para ter facilidade nos furtos. O homem gordo respondeu, enquanto corria em direção a porta, para evitar que confiscasse seu veiculo:
  - Polícia que nada! Sai já de meu carro seu imbecil!
  Não tinha muito que fazer, explicar só iria me atrasar ainda mais, então em mais uma medida desesperada, entrei ligeiramente no carro, sentei no banco macio de motorista, que estava todo rasgado, e antes que o dono chegasse ao seu Sedan, fiz uma ligação direta para que o motor funcionasse.
 Sorte é algo que não conheço, e isto se tornava ainda mais evidente para mim, pois ao tentar fazer a ligação direta, o homem jogou-se diante da janela, e tentou me pegar pelo braço, mas falhou e acabou rasgando a manga de meu agasalho.  Já estava com a adrenalina fervendo dentro de minhas veias, e sem pensar nas conseqüências, esmurrei o rosto do homem, foi então que ele desmaiou sobre o banco do carona.
  Finalmente, consegui fazer a ligação direta, e o carro funcionou. Não era dos melhores, muito menos rápido, mas era a minha única opção. Joguei o homem gordo para fora do carro, e cravei meus pés no acelerador.
  Nove minutos se passaram, e tinha apenas 11 minutos restantes para chegar ao meu destino. Sabia que não seria fácil chegar lá, respeitando todas as normas de trânsitos e as leis, então resolvi abusar dos meus direitos, e acelerei compulsivamente aquele Sedan, ultrapassando a velocidade limite das ruas de Nova Iorque. Sinais de trânsito ficaram invisíveis para mim, pedestres tornaram-se fantasmas, o carro em que estava tinha se tornado um trem-bala, com destino traçado, destruindo tudo o que aparecia em sua frente. A paisagem, ao meu redor passava-se diante de meus olhos em questões de segundos. Prédios se tornavam apenas borrões cinzentos, junto das luzes de suas janelas. Sentia-me em direção do inferno, prestes a encontrar o diabo.
  É nessas horas de intensa adrenalina que um homem vê sua vida, seus atos passando diante de teus olhos. Comecei a questionar a mim mesmo, sobre quem eu era e sobre o que eu viria a ser no futuro, agora que eu estava prestes a ser pai. Estava me sentindo como um adolescente de 18 anos, incerto sobre tudo e desesperado com a idéia de ter um filho. Aos meus 30 anos de idade, isso não seria problema, mas eu jamais pensei em ter um filho, pois sempre achei cruel trazer uma criança inocente para um mundo repleto de pecados.
  Já conseguia ver o departamento no horizonte, me senti tranqüilo por estar prestes a alcançar meu destino, mas como eu destaquei, a sorte é algo que não está do meu lado. Ouvi o grito de uma buzina de um carro que vinha da rua a direita da que eu estava, parecia o rugido de um leão feroz atrás de um pedaço de carne, prestes a dilacerá-lo. Olhei rapidamente em direção até este carro, mas consegui apenas ver faróis fortes, com luz tipo xenon, dos quais me segavam. Pareciam olhos brilhantes, expressando uma fúria infinita, em meio à escuridão. Depois disso, eu apenas vi um clarão branco diante de meus olhos. A senhora sorte era uma vadia muito ambiciosa, uma prostituta na qual eu não tinha um tostão para pagar. Ela sentia prazer em me ver sofrer, tratava de colocar um obstáculo em minha vida, sempre que recusava um de seus programas sujos. Ela acabara de me fazer sofrer um acidente.

Apartir de hoje, todos os sábados, será postado um capítulo do meu primeiro drama investigativo, O Lado Obscuro de um Criminalista. Agradecimentos especiais ao @tiodoramen por me ajudar muito com correções ortográficas, e a @_jujulih por sugerir nomes)

Capítulo I: Futuro Imprevisível


Lembro-me como se fosse ontem, daquela noite fria, do dia 17 de Dezembro, de 2010. Era uma sexta-feira que marcaria a minha vida para sempre.
Estava debruçado sobre a janela do 3º andar do prédio, onde estava hospedado. Era um lugar até que "fino", em um hotel chamado Duane Street Hotel, localizado em uma esquina, próxima de uma pizzaria chamada Raimo Pizza.
Observava atentamente cada pessoa, cada veículo, cada pássaro voando furtivamente em meio a escuridão daquela noite magnífica em Nova Iorque, tudo isso enquanto degustava um Jack Daniel's, esperando por um chamado investigativo, de mais algum assassinato, ou furto.
A vida de um criminalista, em Nova Iorque estava se tornando cada vez mais monótona e cansativa. Não era fácil conviver com as mortes, com a corrupção e com a ganância que envolvia o meu trabalho. Dia após dia de serviço, via muitos colegas, parceiros e amigos morrerem em meus braços, e por isso tudo aquilo tinha se tornado insanamente comum para mim. Já não mais temia a morte, e poderia atendê-la, sem medo, assim que ela batesse em minha porta. Estas situações trágicas corromperam a minha alma, fazendo com que eu me tornasse uma pessoa fria, sem muitos sentimentos.
De fato, estava casado com uma linda mulher chamada Lavínia Vecchi, e talvez fosse o único motivo para que eu continuasse a ter vontade de viver, apesar de nosso casamento não ser algo perfeito, parecido com um conto de fadas.
Estávamos morando separados, pois o meu trabalho estava atrapalhando o nosso convívio. A vida de um criminalista, não é nada fácil. Precisamos estar disponível a qualquer hora, fato este que resultara em diversas brigas de casal, fazendo com que nosso relacionamento decaísse cada vez mais, criando um clima nada agradável em nossas vidas. Por isso decidi ir morar sozinho em um apartamento
   Minha vida tendia em tornar-me cada vez mais uma pessoa sádica, e sempre tratava de me virar de ponta cabeça, colocando-me em uma situação lamentável. Testando o quanto seria capaz de resistir, sem derramar uma simples lágrima. Muitos dizem que minhas palavras são sem nexo, e mal consigo expressar isto que está dentro de mim, mas talvez, nem mesmo eu saiba o que está acontecendo comigo.
Naquela noite de sexta-feira, Lua já estava no ponto mais alto daquele céu estrelado. Os ponteiros já marcavam 1:00AM, e já estava terminando, de tomar por completo, aquela garrafa do meu whisky favorito quando então, recebi um chamado, do Departamento de Polícia de Nova Iorque, conhecido como NYPD, em meu celular que estava sobre um criado mudo de madeira. Corri até o aparelho, e atendi rapidamente. Era Claire Hutson, minha atual supervisora. Percebi um ar de preocupação em sua voz, ao me dizer:
- Lucas Linnankivi, temos uma urgência, é um homicídio, precisamos de você aqui!
Apesar de estar um pouco alterado, respondi bastante interessado:
- Certo, Certo, estarei a caminho, só preciso que me passe a localização onde tudo ocorreu.
Ela, percebendo minha embriagues, respondeu:
- Acho melhor você dar uma passada aqui, no departamento, antes de partir para este caso. Preciso ter uma conversa séria com o senhor! Esteja aqui em 30 minutos, ou seus dias como criminalista, terão fim! Não vou tolerar seus atrasos por muito mais tempo, então, tudo o que você tem são miseros 30 minutos! Já estou contando...
E desligou antes que pudesse dizer qualquer outra coisa.
Confesso que fiquei com certo "medo" de ir até o departamento de polícia de Nova Iorque, da maneira em que estava: embriagado.
Dirigir bêbado poderia causar algum acidente, inconscientemente, e poderia acabar ferindo algum civil, por causa de minha irresponsabilidade. Pensei em chamar um taxi, porém, não haveria nenhum um disponível, naquela região. Era noite de sexta-feira, muitas pessoas recorriam taxi para ir à festas, ou outros lugares desprezíveis, aproveitar a noite que antecedia o fim de semana.
Não havia outra forma, jamais conseguiria chegar ao departamento em tão pouco tempo, a não ser arriscar ir com meu próprio carro. Foi então, que em uma medida desesperada, sem pensar nas conseqüências, apanhei meu molho de chaves, fechei rapidamente a janela daquele quarto e parti desesperadamente, para porta de saída. Desci em direção a garagem,  onde meu veículo estava estacionado, foi então que de repente, ouço novamente o toque de meu celular, e pensando ser Claire novamente, atendi rapidamente. Poderia ser algo importante sobre o homicídio que acabara de acontecer. Estranhei ao ouvir a voz de Lavínia, me ligando, as 1:06AM, fato incomum, desde que decidimos morar separados. Ela estava com uma voz cansada, sussurrou:
   - Querido, eu preciso de você... Eu não estou bem, estou com saudades...
   - Agora não dá ! Eu acabei de receber um chamado urgente de homicídio ! Conversamos pela manhã
   E antes que eu pressionasse o botão vermelho, para encerrar a ligação, ela exclamou:
   - Você não faz idéia, do que esta acontecendo comigo... minha menstruação está atrasada, faz dias que não consigo comer direito... Eu realmente estou muito mal
   Sem entender direito, o ponto em que ela queria chegar, devido a minha embriagues visível, perguntei:
   - Mas o que isto tem haver, com você estar mal? Deve ser só um mal estar, logo passa, você não precisa de mim para ser curada... Isso é normal...
   - Você realmente, se tornou uma pessoa muito fria... Sem sentimentos ! Como uma menstruação atrasada pode ser normal? Você já mal sabe o que se passa no interior do corpo desta mulher que um dia você jurou amar !
   - Desculpe, mas estou atrasado, tenho pouco tempo para chegar no departamento de polícia, então, seja direta !
   - Arrogante, como sempre... O que foi que eu vi em você?
   Seus gritos ao telefone, estavam a ponto de sangrar meus ouvidos. Lavínia nunca foi uma mulher calma, e eu nunca fui um homem atencioso, talvez isso tenha causado o colapso em nossa relação.
   - Isso não importa agora, apenas me diga, o que você quer?
   - Você realmente é um cretino... Imbecil ! Eu não sei porque eu ainda tento te dizer as coisas, me re-aproximar de você... Não sei quem é mais imbecil, você, ou eu !
   - Essa conversa vai durar a noite toda... Você está afim de me atrasar, e fazer eu perder este caso... e meu emprego não é? Então tudo bem, vá em frente
   - Seu emprego, o que você faz, de pouco me importa ! Será que você não percebe, que estou grávida? Eu estou GRÁVIDA! Quer que eu soletre, pra você entender melhor, seu mentecapto, G-R-Á-V-I-D-A !
   Estas palavras, eram as últimas que eu precisava ouvir... Eu jamais planejei ter filhos, pelo fato de meu serviço não dispor tempo para isso. Sem ação, sem o que dizer, apenas indaguei-a:
   - Grávida? Como assim.... Grávida?
   - Sim, grávida ! Como eu disse, estou com a menstruação atrasada, fui até uma farmácia, e comprei um daqueles testes caseiros, feitos com a urina... e deu positivo, eu vou ter um filho seu !
   - Mas como isso é possível? O que vamos fazer? Eu nunca planejei ter filhos !
   - O que vamos fazer não sei, só sei que você tem que vir aqui agora ! Eu estou muito mal...
   Se eu atendesse este pedido da minha mulher, seria egoísmo da minha parte, ao deixar um caso de homicídio de lado, para tratar de problemas pessoais, e sem dúvidas, seria o fim de minha carreira de criminalista. Ela estava sendo dramática como sempre, e este desespero todo, é por conta da falta de atenção, na qual ela estava sofrendo. Provavelmente, ela não conseguiu encontrar ninguém, depois que fomos morar separadamente, pois não somos divorciados, e nem um homem quer uma mulher que ainda é casada, em cartório, muito menos agora, que está grávida. Tendo ciência, da dramatização de Lavínia, respondi:
   - Eu passo ai pela manhã, hoje realmente, estou incapacitado, não posso deixar meu trabalho por questões pessoais.
   Apenas dei tempo para ela responder:
   - Trabalho, trabalho... Este teu trabalho, te tornou uma pessoa sádica, uma pessoa diferente da que conheci! Se você não vier aqui agora, eu...
   Sem esperar que ela completasse a frase, desliguei o celular.
   Para que ela não tornasse a me ligar, desliguei-o, e coloquei no bolso de minha calça. De relance, vi meu casaco pendurado, no qual havia esquecido de colocar. Estava muito frio, não poderia sair de casa, sem agasalho, poderia prejudicar minha saúde.
   Sai rapidamente de meu quarto, tranquei a porta, e fiquei parado, por alguns segundos, olhado para o nada... estava então, diante de mais um caso, mais uma vez, diante da morte.